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O papel da mulher na sociedade vem passando por evoluções no decorrer do tempo, mas ainda está longe de alcançar um verdadeiro destaque, por uma série de impedimentos relacionados aos preconceitos dessa sociedade. Em alguns setores profissionais, isso parece avançar, como no do cinema, em que algumas atrizes têm conseguido papéis de destaque. Sobre isso, leia a **notícia de internet** que reproduzimos no **Texto 1**.
**Texto 1**
Como um texto produzido para circular na internet, o **Texto 1** obedece a um formato exclusivo e explora recursos próprios do ambiente digital. Sobre esses aspectos, assinale a alternativa que registra a análise **CORRETA**.
Imagens anexadas
A)A indicação do setor do veículo de comunicação ao qual o texto se refere, Pop & Arte, é um elemento característico dos textos jornalísticos da internet, havendo ainda um destaque gráfico especial para isso.
B)A presença de trechos que apresentam um conteúdo resumido da notícia, como o que encontramos logo abaixo da manchete, é um antecipador frequente e importante na comunicação jornalística digital.
C)A indicação inicial da data de publicação é um mecanismo típico do jornalismo digital, como observamos logo no início desse texto, o que cria a possibilidade de registro da constante atualização das notícias.
D)A presença de cinco ícones representativos da mesma rede social, logo acima do texto verbal, é um aspecto importante na produção dessa notícia e limita suas possibilidades de publicação na internet.
E)A presença de trechos que, pelo mecanismo do *hiperlink*, conseguem acessar outros textos, como ocorre logo no primeiro parágrafo, é um recurso frequente de intertextualidade nesse jornalismo digital.
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**Texto 1**
**Taís Araujo vai interpretar Nossa Senhora em 'O Auto da Compadecida 2'**
Versão da santa foi interpretada por Fernanda Montenegro no primeiro filme, de 2000. Continuação dirigida por Guel Arraes e Flávia Lacerda tem estreia prevista para 2024.
Por g1 — 03/07/2023 14h18 · Atualizado há uma semana
Taís Araujo vai interpretar uma nova versão de Nossa Senhora em "O Auto da Compadecida 2". No primeiro filme, de 2000, o papel ficou marcado pela atuação de Fernanda Montenegro.
De acordo com comunicado da produção divulgado nesta segunda-feira (3), a atriz de 93 anos não pode repetir o trabalho por "incompatibilidade de agenda".
A continuação, com estreia prevista para 2024, vai ser dirigida por Guel Arraes, diretor do primeiro, e Flávia Lacerda. O elenco conta com o retorno de Matheus Nachtergaele, como João Grilo, e Selton Mello, como Chicó.
"Nós falamos tanto que ninguém é insubstituível, mas Fernanda Montenegro é. Graças a Deus temos muitas 'Nossas Senhoras', e interpretar essa nova versão da Compadecida será certamente uma celebração a elas", afirma Araujo em vídeo.
O primeiro filme com a história da matriarca, lançado em 2000, foi o longa brasileiro mais assistido no país naquele ano. Antes, ele foi lançado na TV em formato de minissérie em 1999.
Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2023/07/03/tais-araujo-vai-interpretar-nossa-senhora-em-o-auto-da-compadecida-2.ghtml Acesso em: 10 jul. 2023. Adaptado.
A construção da coesão de um texto também é realizada por palavras que se associam entre si, formando uma espécie de rede. Nesse processo, há expressões que se relacionam por se referirem a elementos do texto semanticamente afins. Qual dos cinco fragmentos reproduzidos do **Texto 1**, a seguir, expressa uma referência distinta da dos demais?
A)“Taís Araujo vai interpretar uma nova versa˜o de Nossa Senhora [...]”.
B)“[...] a atriz de 93 anos não pode repetir o trabalho [...]”.
C)“Graças a Deus temos muitas ’Nossas Senhoras’ [...]”.
D)“[...] essa nova versa˜o da Compadecida será certamente uma celebração [...]”.
E)“O primeiro filme com a história da matriarca [...]”.
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Em outras áreas da sociedade, a mulher sofre as mesmas pressões e preconceitos que persistem há décadas. Observe a situação que é retratada no excerto do **texto teatral** de Ariano Suassuna, reproduzido no **Texto 2**.
**Texto 2**
MANUEL
Mas esses dois? Você mesma via daqui e comentava o que eles faziam com João Grilo e os outros empregados da padaria!
JOÃO GRILO
Se é por mim, não há dificuldade, porque eu sou tão sem-vergonha, que já me esqueci de tudinho.
MANUEL
Devia ter esquecido lá, João. Pode alegar alguma coisa em favor deles?
A COMPADECIDA
O perdão que o marido deu à mulher na hora da morte, abraçando-se com ela para morrerem juntos.
MANUEL
Isso pode se dizer em favor dele. Mas ela?
ENCOURADO
Enganava o marido com todo mundo.
MULHER
Porque era maltratada por ele. Logo no começo de nosso casamento, começou a me enganar. A senhora não sabe o que eu passei, porque nunca foi moça pobre casada com homem rico, como eu. Amor com amor se paga.
A COMPADECIDA
Eu entendo tudo isso mais do que você pensa. Sei o que as mulheres passam no mundo, se bem que não tenha do que me queixar, porque meu marido era o que se pode chamar um santo.
JOÃO GRILO
Grande novidade!
A COMPADECIDA
O que, João?
JOÃO GRILO
Falei não.
ENCOURADO
Falou, sim. Ele disse: “Grande novidade.”
A COMPADECIDA
Na verdade, João tem toda razão. Falei assim por falar, mas que São José era um santo, não é nenhuma novidade.
ENCOURADO
A senhora está falando muito e vê-se perfeitamente sua proteção com esses nojentos, mas nada pôde dizer ainda em favor da mulher do padeiro.
A COMPADECIDA
Já aleguei sua condição de mulher, escravizada pelo marido e sem grande possibilidade de se libertar. Que posso alegar ainda em seu favor?
PADEIRO
A prece que fiz por ela antes de morrer. O mais ofendido pelos atos que ela praticava era eu e, no entanto, rezei por ela. Isso deve ter algum valor.
A COMPADECIDA
E tem. Alego isso em favor dos dois.
MANUEL
Está recebida a alegação.
SUASSUNA, Ariano. *Auto da Compadecida*. 35. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p. 150-152. Excerto.
O **Texto 2** é um excerto da peça *Auto da Compadecida*, de autoria de Ariano Suassuna. São aspectos da obra do autor encontrados com evidência nesse trecho
A)os elementos da cultura nordestina, como a figura santa da Compadecida, e da cultura contemporânea, como na figura do Encourado.
B)o humor, como visto nos diálogos entre Manuel e o Encourado, e os elementos da cultura medieval, como a figura do padeiro.
C)a denúncia social, como nas ações dos patrões de João Grilo, e os elementos da cultura popular, como o uso de ditados populares.
D)a ironia, como no perdão que o padeiro deu à mulher, e a linguagem típica da cultura nordestina, como o uso de palavras simples.
E)os elementos da cultura erudita, como as figuras de Jesus e Maria, e a construção de personagens realistas, como Manuel.
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**Texto 2**
MANUEL
Mas esses dois? Você mesma via daqui e comentava o que eles faziam com João Grilo e os outros empregados da padaria!
JOÃO GRILO
Se é por mim, não há dificuldade, porque eu sou tão sem-vergonha, que já me esqueci de tudinho.
MANUEL
Devia ter esquecido lá, João. Pode alegar alguma coisa em favor deles?
A COMPADECIDA
O perdão que o marido deu à mulher na hora da morte, abraçando-se com ela para morrerem juntos.
MANUEL
Isso pode se dizer em favor dele. Mas ela?
ENCOURADO
Enganava o marido com todo mundo.
MULHER
Porque era maltratada por ele. Logo no começo de nosso casamento, começou a me enganar. A senhora não sabe o que eu passei, porque nunca foi moça pobre casada com homem rico, como eu. Amor com amor se paga.
A COMPADECIDA
Eu entendo tudo isso mais do que você pensa. Sei o que as mulheres passam no mundo, se bem que não tenha do que me queixar, porque meu marido era o que se pode chamar um santo.
JOÃO GRILO
Grande novidade!
A COMPADECIDA
O que, João?
JOÃO GRILO
Falei não.
ENCOURADO
Falou, sim. Ele disse: “Grande novidade.”
A COMPADECIDA
Na verdade, João tem toda razão. Falei assim por falar, mas que São José era um santo, não é nenhuma novidade.
ENCOURADO
A senhora está falando muito e vê-se perfeitamente sua proteção com esses nojentos, mas nada pôde dizer ainda em favor da mulher do padeiro.
A COMPADECIDA
Já aleguei sua condição de mulher, escravizada pelo marido e sem grande possibilidade de se libertar. Que posso alegar ainda em seu favor?
PADEIRO
A prece que fiz por ela antes de morrer. O mais ofendido pelos atos que ela praticava era eu e, no entanto, rezei por ela. Isso deve ter algum valor.
A COMPADECIDA
E tem. Alego isso em favor dos dois.
MANUEL
Está recebida a alegação.
SUASSUNA, Ariano. *Auto da Compadecida*. 35. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p. 150-152. Excerto.
Um gênero textual é constituído por aspectos linguísticos, textuais e discursivos. No caso do **Texto 2**, um fragmento de texto teatral, essas características são percebidas no/a
A)finalidade, voltada principalmente para que o texto seja representado e gere entretenimento, como se pode perceber nas marcas para indicação dos movimentos e expressões dos personagens.
B)cenário, a partir do qual sabemos que a cena se passa numa igreja em outra dimensão, já que os personagens estão mortos e podemos perceber as referências a espaço no início do fragmento.
C)linguagem, marcada pelo emprego adequado da norma de referência da língua portuguesa, como se pode observar na adequação dos verbos e da pontuação e na grafia correta das palavras.
D)fala dos personagens, estruturada na forma de discurso direto, que reproduz fielmente o que será dito por cada personagem na encenação, com a indicação de quem fala cada bloco de texto.
E)foco narrativo, marcado pelo narrador observador, em terceira pessoa, já que a história é contada do ponto de vista de alguém de fora, como se vê nos verbos, pronomes e advérbios do trecho.
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O texto a seguir também retrata uma situação ainda hoje vivida por muitas mulheres negras e pobres no país. Leia, então, o trecho do **romance** *Clara dos Anjos*, de Lima Barreto, reproduzido no **Texto 3**.
**Texto 3**
Até ali, Clara não dissera palavra; e Dona Salustiana, mesmo antes de saber que aquela moça era mais uma vítima da libidinagem do filho, quase não a olhava; e, se o fazia, era com evidente desdém. A moça foi notando isso e encheu-se de raiva, de rancor por aquela humilhação por que passava, além de tudo que sofria e havia ainda de sofrer.
Ao ouvir a pergunta de Dona Salustiana, não se pôde conter e respondeu como fora de si:
— Que se case comigo.
Dona Salustiana ficou lívida; a intervenção da mulatinha a exasperou. Olhou-a cheia de malvadez e indignação, demorando o olhar propositadamente. Por fim, expectorou:
— Que é que você diz, sua negra?
[...]
A velha continuou:
— Casado com gente dessa laia... Qual!... Que diria meu avô, Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina — que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!
Parou um pouco de falar; e, após instantes, aduziu:
— Engraçado, essas sujeitas! Queixam-se de que abusaram delas... É sempre a mesma cantiga... Por acaso, meu filho as amarra, as amordaça, as ameaça com faca e revólver? Não. A culpa é delas, só delas...
Dona Margarida ia perguntar: "Que decide, então?" — quando se ouviram passos na escada. Era o dono da casa. Entrando e deparando-se-lhe aquele quadro, suspendeu os passos e parou no meio da sala.
Olhou tudo e todos e perguntou:
— Que há?
"Papai" — ia dizendo uma das filhas; — mas sabendo, por aí, quem era aquele homem, Clara correu para ele, ajoelhou-se e implorou:
— Tenha pena de mim, "Seu" Azevedo! Tenha pena de uma infeliz! Seu filho me desgraçou!
O velho Azevedo descansou os embrulhos, levantou a moça, fê-la sentar-se; e ele, sentando-se por sua vez, pôs-se a olhar, cheio de pena, o dorido rosto da rapariga. Todos os olhos se fixaram nele; ninguém respirava. Afinal, Azevedo falou:
— Minha filha, eu não te posso fazer nada. Não tenho nenhuma espécie de autoridade sobre "ele"... Já o amaldiçoei... Demais, "ele" fugiu e eu já esperava que essa fuga fosse para esconder mais alguma das suas ignóbeis perversidades... Tu, minha filha, te ajoelhaste diante de mim ainda agora. Era eu que devia ajoelhar-me diante de ti, para te pedir perdão por ter dado vida a esse bandido — que é o meu filho... Eu, como pai, não o perdoo; mas peço que Deus me perdoe o crime de ser pai de tão horrível homem... Minha filha, tem dó de mim, deste pobre velho, deste amargurado pai, que há dez anos sofre as ignomínias que meu filho espalha por aí, mais do que ele... Não te posso fazer nada... Perdoa-me, minha filha! Cria teu filho e me procura se...
Não acabou a frase. A voz sumiu-se; ele descaiu o corpo sobre a cadeira e os olhos se foram tornando inchados.
As filhas acudiram, a mulher também; e uma daquelas, chorando, pediu à Clara e à Dona Margarida:
— É favor, minhas senhoras; retirem-se, sim?
Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. [...]
BARRETO, Lima. *Clara dos Anjos*. São Paulo: Ática, 2002. p. 131-133. (Fragmento)
O **Texto 3** é o trecho de um romance de Lima Barreto que, como em quase toda sua obra, denuncia mazelas sociais, como o racismo e o machismo. Esses problemas sociais são percebidos nas falas e ações de cada um dos personagens, como é o caso de
A)Dona Salustiana, que tenta naturalizar um estupro, valendo-se de sua raça para isso.
B)Clara, que retribuiu os carinhos de um jovem e depois quis dinheiro de sua família.
C)Dona Margarida, que se mostrou uma submissa ao poder aquisitivo da família Jones.
D)Azevedo, que reconhece as atitudes racistas da esposa e dá apoio à jovem Clara.
E)Lord Jones, que ensinou para sua família preceitos antirraciais vigentes na sociedade.
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**Texto 3**
Até ali, Clara não dissera palavra; e Dona Salustiana, mesmo antes de saber que aquela moça era mais uma vítima da libidinagem do filho, quase não a olhava; e, se o fazia, era com evidente desdém. A moça foi notando isso e encheu-se de raiva, de rancor por aquela humilhação por que passava, além de tudo que sofria e havia ainda de sofrer.
Ao ouvir a pergunta de Dona Salustiana, não se pôde conter e respondeu como fora de si:
— Que se case comigo.
Dona Salustiana ficou lívida; a intervenção da mulatinha a exasperou. Olhou-a cheia de malvadez e indignação, demorando o olhar propositadamente. Por fim, expectorou:
— Que é que você diz, sua negra?
[...]
A velha continuou:
— Casado com gente dessa laia... Qual!... Que diria meu avô, Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina — que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!
Parou um pouco de falar; e, após instantes, aduziu:
— Engraçado, essas sujeitas! Queixam-se de que abusaram delas... É sempre a mesma cantiga... Por acaso, meu filho as amarra, as amordaça, as ameaça com faca e revólver? Não. A culpa é delas, só delas...
Dona Margarida ia perguntar: "Que decide, então?" — quando se ouviram passos na escada. Era o dono da casa. Entrando e deparando-se-lhe aquele quadro, suspendeu os passos e parou no meio da sala.
Olhou tudo e todos e perguntou:
— Que há?
"Papai" — ia dizendo uma das filhas; — mas sabendo, por aí, quem era aquele homem, Clara correu para ele, ajoelhou-se e implorou:
— Tenha pena de mim, "Seu" Azevedo! Tenha pena de uma infeliz! Seu filho me desgraçou!
O velho Azevedo descansou os embrulhos, levantou a moça, fê-la sentar-se; e ele, sentando-se por sua vez, pôs-se a olhar, cheio de pena, o dorido rosto da rapariga. Todos os olhos se fixaram nele; ninguém respirava. Afinal, Azevedo falou:
— Minha filha, eu não te posso fazer nada. Não tenho nenhuma espécie de autoridade sobre "ele"... Já o amaldiçoei... Demais, "ele" fugiu e eu já esperava que essa fuga fosse para esconder mais alguma das suas ignóbeis perversidades... Tu, minha filha, te ajoelhaste diante de mim ainda agora. Era eu que devia ajoelhar-me diante de ti, para te pedir perdão por ter dado vida a esse bandido — que é o meu filho... Eu, como pai, não o perdoo; mas peço que Deus me perdoe o crime de ser pai de tão horrível homem... Minha filha, tem dó de mim, deste pobre velho, deste amargurado pai, que há dez anos sofre as ignomínias que meu filho espalha por aí, mais do que ele... Não te posso fazer nada... Perdoa-me, minha filha! Cria teu filho e me procura se...
Não acabou a frase. A voz sumiu-se; ele descaiu o corpo sobre a cadeira e os olhos se foram tornando inchados.
As filhas acudiram, a mulher também; e uma daquelas, chorando, pediu à Clara e à Dona Margarida:
— É favor, minhas senhoras; retirem-se, sim?
Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. [...]
BARRETO, Lima. *Clara dos Anjos*. São Paulo: Ática, 2002. p. 131-133. (Fragmento)
Na construção linguística do **Texto 3**, são observadas expressões vocabulares que contribuem para a formulação literária das ideias do romance. Um recurso figurado utilizado para introduzir o clímax da narrativa é o/a
A)o comparativo ‘como’ em “[...] como fora de si [...]”.
B)o verbo ‘aduzir’ em “[...] após instantes, aduziu [...]”.
C)o interrogativo ‘que’ no trecho “— Que há?”.
D)o possessivo ‘seu’ em “Seu filho me desgraçou!”.
E)o verbo ‘respirar’ em “[...] ninguém respirava [...]”.
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Leia o texto a seguir, de autoria do grande crítico literário brasileiro Antonio Candido.
[...] a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou a negação deles, como a miséria, a servidão, mutilação espiritual. [...] ela tem muito a ver com a luta pelos direitos humanos.
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. *In*: LIMA, Aldo de (org.). *O direito à literatura*. Recife: Editora da UFPE, 2012. p. 35.
Refletindo sobre a literatura como um direito humano, Candido destaca três possibilidades de negação de direitos. Podemos observar algumas dessas privações no **Texto 2**, um texto teatral, e no **Texto 3**, um romance. Em relação específica aos direitos das mulheres, como podemos associar essas possibilidades aos dois textos lidos?
A)A mulher do padeiro e Clara têm em comum a miséria, pelo fato de ambas serem de uma família pobre e dependerem de um homem para o seu sustento, fato que é destacado nos seus casamentos.
B)A mutilação espiritual é observada na construção da personagem Clara, por causa da cor de sua pele, e da mulher do padeiro, que, em sua condição feminina, não tem sequer o nome próprio citado no texto.
C)As personagens Clara e mulher do padeiro são dois exemplos de como a literatura aborda a servidão: a primeira, por depender de um homem para criar o seu filho e a segunda, por se assumir uma adúltera.
D)As negações dos direitos à miséria e à servidão são fatores comuns à construção das personagens Clara e mulher do padeiro, que acabam à procura de um casamento para se livrar dessas condições.
E)A condição da mutilação espiritual é observada de maneiras diferentes em Clara e na mulher do padeiro; a primeira, sofrendo por sua inexperiência na vida, e a segunda, por amor a seu marido.
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Os textos anteriores revelam avanços ou retrocessos em relação à figura da mulher em nossa sociedade. Continuando essa temática, vamos ler o **Texto 4**, a seguir, um excerto de **artigo científico** que resgata o papel social da mulher na história.
**Texto 4**
O papel social da mulher, ao longo da história, vem se modificando de acordo com os interesses dominantes de cada época. A Igreja Católica, em tempos medievais, teve papel decisivo na execução de centenas de mulheres acusadas de bruxaria, reafirmando no contexto da época a figura da “Eva sedutora” a serviço do demônio (FEDERICI, 2017).
A partir do período renascentista, a religião deixa de ser o centro da vida em sociedade. Os artistas se preocupam em apresentar o homem como centro do universo (antropocentrismo) e a relação que ele estabelece com a natureza. Valorizam a harmonia e o equilíbrio, elementos considerados importantes durante a antiguidade clássica. Relevante exemplo, nesse cenário, é a imagem da virgem Maria, retratada no século XIV por Michelangelo, em *La Pietá*.
A situação da mulher, no Renascimento, apesar de uma melhora no sentido da consideração social, não mudou de forma expressiva. Devia, como antes, trabalhar em casa ou nos campos e cuidar de sua família. Devia ser recatada e modesta, portadora de uma fé inabalável, seguindo os ditames da religião cristã. Só recentemente, no ano de 2016, o Papa Francisco canonizou Maria de Magdala (Madalena), tornando-a “apostola Apostolorum”, a apóstola dos apóstolos, em uma ruptura com a percepção anterior. Magdalena é conhecida nas escrituras bíblicas como prostituta e a primeira testemunha da ressurreição de Jesus Cristo.
O estereótipo de “mãe cuidadora e zelosa pelo lar” só se modifica depois do período que abrange as duas grandes guerras mundiais. A dirigente comunista da guerra civil espanhola, Dolores Ibárruri, em discurso datado de 19/07/1936, assim convocava as mulheres para a luta armada: “Mulheres, heroicas mulheres do povo! [...] lutem ao lado dos homens para defender a vida e a liberdade de seus filhos, que o fascismo ameaça!”.
Essas breves considerações históricas evidenciam que, de acordo com os interesses da religião e do Estado, a figura feminina se amolda às regras do “poder masculino”, que confere “à bruxa ou à santa” o lugar que lhe convém de dominação e violência, apropriando-se do poder de decisão sobre seus corpos. Essas mudanças históricas, que tiveram o seu auge no século XIX, com a criação da figura da dona de casa em tempo integral, redefiniram a posição das mulheres na sociedade e com relação aos homens.
Disponível em: https://cadernosuninter.com/index.php/humanidades/article/view/2638 Acesso em: 10 jul. 2023. Adaptado.
O **Texto 4** desenvolve seu tema situando o papel social da mulher em 4 períodos históricos específicos. Há, nele, algumas expressões adverbiais que, além de fazerem referência a um desses quatro períodos, sinalizam a progressão das ideias do texto, organizadas em espécies de blocos. Qual dos excertos do **Texto 4** grifados a seguir cumpre essa função?
A)“[...] a imagem da virgem Maria, retratada no seˊculo XIV por Michelangelo, em *La Pietá*” (2º §)
B)“Devia, como antes, trabalhar em casa ou nos campos e cuidar de sua família” (3º §)
C)“Soˊ recentemente, no ano de 2016, o Papa Francisco canonizou Maria de Magdala [...]” (3º §)
D)“[...] só se modifica depois do perıˊodo que abrange as duas grandes guerras mundiais [...]” (4º §)
E)“[...] Dolores Ibárruri, em discurso datado de 19/07/1936, assim convocava [...]” (4º §)
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**Texto 4**
O papel social da mulher, ao longo da história, vem se modificando de acordo com os interesses dominantes de cada época. A Igreja Católica, em tempos medievais, teve papel decisivo na execução de centenas de mulheres acusadas de bruxaria, reafirmando no contexto da época a figura da “Eva sedutora” a serviço do demônio (FEDERICI, 2017).
A partir do período renascentista, a religião deixa de ser o centro da vida em sociedade. Os artistas se preocupam em apresentar o homem como centro do universo (antropocentrismo) e a relação que ele estabelece com a natureza. Valorizam a harmonia e o equilíbrio, elementos considerados importantes durante a antiguidade clássica. Relevante exemplo, nesse cenário, é a imagem da virgem Maria, retratada no século XIV por Michelangelo, em *La Pietá*.
A situação da mulher, no Renascimento, apesar de uma melhora no sentido da consideração social, não mudou de forma expressiva. Devia, como antes, trabalhar em casa ou nos campos e cuidar de sua família. Devia ser recatada e modesta, portadora de uma fé inabalável, seguindo os ditames da religião cristã. Só recentemente, no ano de 2016, o Papa Francisco canonizou Maria de Magdala (Madalena), tornando-a “apostola Apostolorum”, a apóstola dos apóstolos, em uma ruptura com a percepção anterior. Magdalena é conhecida nas escrituras bíblicas como prostituta e a primeira testemunha da ressurreição de Jesus Cristo.
O estereótipo de “mãe cuidadora e zelosa pelo lar” só se modifica depois do período que abrange as duas grandes guerras mundiais. A dirigente comunista da guerra civil espanhola, Dolores Ibárruri, em discurso datado de 19/07/1936, assim convocava as mulheres para a luta armada: “Mulheres, heroicas mulheres do povo! [...] lutem ao lado dos homens para defender a vida e a liberdade de seus filhos, que o fascismo ameaça!”.
Essas breves considerações históricas evidenciam que, de acordo com os interesses da religião e do Estado, a figura feminina se amolda às regras do “poder masculino”, que confere “à bruxa ou à santa” o lugar que lhe convém de dominação e violência, apropriando-se do poder de decisão sobre seus corpos. Essas mudanças históricas, que tiveram o seu auge no século XIX, com a criação da figura da dona de casa em tempo integral, redefiniram a posição das mulheres na sociedade e com relação aos homens.
Disponível em: https://cadernosuninter.com/index.php/humanidades/article/view/2638 Acesso em: 10 jul. 2023. Adaptado.
Como um texto mais monitorado, o **Texto 4** cumpre certos requisitos no que diz respeito à norma de referência da língua portuguesa e a sua própria configuração sintática. A seguir, alguns desses aspectos são organizados num quadro analítico, com o parágrafo (§), o excerto e a respectiva análise. Assim, assinale a alternativa que registra a análise **CORRETA**.
A)1º § — “[...] reafirmando no contexto da época a figura da ‘Eva sedutora’ [...]” — **Análise**: Há uma expressão adverbial que deveria vir entre vírgulas, por ser de maior extensão.
B)2º § — “Valorizam a harmonia e o equilíbrio [...]” — **Análise**: O plural do verbo é justificado pela concordância com o sujeito composto, que vem posposto a ele.
C)2º § — “Relevante exemplo, nesse cenário, é a imagem da virgem Maria [...]” — **Análise**: Observa-se um exemplo de oração em ordem direta da língua portuguesa
D)3º § — “[...] como prostituta e a primeira testemunha [...]” — **Análise**: Deveria haver uma vírgula antes do ‘e’, já que há mudança de sujeito das orações coordenadas.
E)5º § — “[...] confere ‘à bruxa ou à santa’ o lugar que lhe convém [...]” — **Análise**: O pronome ‘lhe’ deveria assumir a forma plural (lhes), já que substitui dois antecedentes.
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Em relação ao mercado de trabalho, as mulheres também enfrentam desafios diários em busca de reconhecimento e igualdade de oportunidades e salários. Sobre esse aspecto, encontramos alguns dados no **Texto 5**, um **infográfico**.
**Texto 5**
Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/336151559664421448/ Acesso em: 10 jul. 2023.
Como infográfico, o **Texto 5** é construído com elementos verbais e visuais. Sobre a construção do texto e as ideias nele identificadas, assinale a alternativa **CORRETA**.
Imagens anexadas
A)No topo do infográfico, as figuras de duas mãos, uma carteira e uma cédula, associadas ao título “Os salários femininos”, representam a igualdade salarial que vem sendo conquistada pelas mulheres hoje.
B)Na segunda parte do infográfico, os dados sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho, além de uma indicação numérica, são representados pela figura de um relógio e pelo gráfico de barras.
C)Na terceira parte do infográfico, há um gráfico pizza que indica uma porcentagem de mulheres economicamente ativas e desempregadas, informação relacionada à figura de uma mulher confusa.
D)Na quarta parte do infográfico, há indicativos numéricos do aumento de contratações femininas em determinados segmentos sociais, explicados pelos gráficos de barras e setas indicando equivalência.
E)Na parte final do infográfico, são encontrados dados sobre as fontes de pesquisa e a logomarca da empresa responsável por ela, clareando os dados para o leitor em associação à figura de uma lâmpada.
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A questão existencial envolvendo as mulheres é tema também recorrente em nossa literatura. Observe, no **Texto 6**, a seguir, o trecho de um **conto** de Conceição Evaristo que dialoga com a obra de Clarice Lispector, outra autora de destaque do Brasil.
**Texto 6**
**Macabéa, flor de mulungu**
Flor de Mulungu tinha a potência da vida. Força motriz de um povo que resilientemente vai emoldurando seu grito. Mulheres como Macabéa não morrem. Costumam ser porta-vozes de outras mulheres, iguais a elas, mesmo que travestidas em Glórias, e também costumam ser intérpretes das dores de homens, cabras-machos, vítimas-algozes, como Olímpico de Jesus. Macabéa não ia morrer. Uma trindade feminina potencializa a existência dela. Macabéa, mulher das mezinhas, dos cerzimentos, das mãos aparadoras e anunciantes da boa-nova do nascimento da vida, não morreria jamais.
EVARISTO, Conceição. Macabéa, flor de mulungu. *In*: GUIMARÃES, Mayara R.; MAFFEI, Luis (orgs.). *Extratextos 1*: Clarice Lispector, personagens reescritos. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2012. p. 13-23.
No fragmento de conto lido no **Texto 6**, a autora Conceição Evaristo propõe uma história conexa à de Macabéa, personagem principal da obra *A Hora da Estrela*, de Clarice Lispector. Evaristo, entretanto, dá outra perspectiva à personagem, revisando, inclusive, o fato de sua morte. Que aspecto da narrativa de Conceição Evaristo marca a diferença nesse trecho?
A)O foco narrativo da história, que agora fica a cargo da trindade feminina que ressuscita a protagonista.
B)A personagem Glória, que agora aparece com nova caracterização e como uma mulher transexual.
C)O personagem Olímpico de Jesus, que agora volta como homem arrependido, vítima da sociedade.
D)A construção do espaço, que agora não é mais marcado pela rua, e sim por uma dimensão superior.
E)O narrador da história, que agora não apresenta uma Macabéa frágil, como antes fez Rodrigo S. M.
UPE2024SSA 3Questao 12PortuguêsMedia
Também o existencialismo feminino é tema do **poema** de Cecília Meireles, reproduzido no **Texto 7**, a seguir.
**Texto 7**
**Prisão**
Nesta cidade
quatro mulheres estão no cárcere.
Apenas quatro.
Uma na cela que dá para o rio,
outra na cela que dá para o monte,
outra na cela que dá para a igreja
e a última na do cemitério
ali embaixo.
Apenas quatro.
Quarenta mulheres noutra cidade,
quarenta, ao menos,
estão no cárcere.
Dez voltadas para as espumas,
dez para a lua movediça,
dez para pedras sem resposta,
dez para espelhos enganosos.
Em celas de ar, de água, de vidro
estão presas quarenta mulheres,
quarenta ao menos, naquela cidade.
Quatrocentas mulheres
quatrocentas, digo, estão presas:
cem por ódio, cem por amor,
cem por orgulho, cem por desprezo
em celas de ferro, em celas de fogo,
em celas sem ferro nem fogo, somente
de dor e silêncio,
quatrocentas mulheres, numa outra cidade,
quatrocentas, digo, estão presas.
Quatro mil mulheres, no cárcere,
e quatro milhões – e já nem sei a conta,
em cidades que não se dizem,
em lugares que ninguém sabe,
estão presas, estão para sempre
– sem janela e sem esperança,
umas voltadas para o presente,
outras para o passado, e as outras
para o futuro, e o resto – o resto,
sem futuro, passado ou presente,
presas em prisão giratória,
presas em delírio, na sombra,
presas por outros e por si mesmas,
tão presas que ninguém as solta,
e nem o rubro galo do sol
nem a andorinha azul da lua
podem levar qualquer recado
à prisão por onde as mulheres
se convertem em sal e muro.
MEIRELES, Cecília. Prisão. *In*: SECCHIN, Antonio Carlos (org.). *Poesia completa vol. 2*. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.1759-1760.
O poema *Prisão*, de Cecília Meireles, que encontramos no **Texto 7**, nos mostra uma situação relacionada à existência feminina. Qual das alternativas a seguir analisa CORRETAMENTE esse poema?
A)O poema descreve o aprisionamento de mulheres em quatro fases, pelas quais sabemos, do início ao fim, causas e consequências do processo e a materialidade dos fatos, algo recorrente na obra da autora.
B)Há uma passagem de tempo no poema, a partir da qual percebemos cada vez mais mulheres presas por questões cotidianas, num movimento existencial e concreto típico da escrita de Cecília Meireles.
C)É possível perceber que, apesar de estarem presas, essa prisão é mais metafórica, algo próprio dos poemas de Cecília, e as mulheres seguem conseguindo comunicar ao mundo essas dores da “prisão”.
D)O poema constrói em nossa mente uma espécie de calabouço, a partir do qual a autora busca destacar o existencialismo feminino na condição de mulheres dispostas a enfrentar todos os obstáculos da vida.
E)Há uma construção gradativa da força da prisão a que as mulheres estão submetidas, já que cada vez mais estão encarceradas por elementos imateriais, como ocorre com frequência na poesia de Cecília.
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