Uma amostra das questões. Crie uma conta para resolver todas com correção e comentário.
UEG20251a faseQuestao 6PortuguêsSemântica dos conectivosMediaPreconceito e intolerância na linguagem
01 Como a intolerância linguística passa quase despercebida pela opinião pública e não provoca sérios abalos 02 sociais, da mesma forma que aqueles provenientes da intolerância religiosa ou política, parece nem existir. Contudo, a 03 intolerância linguística existe e é tão agressiva quanto outra qualquer, pois atinge o cerne das individualidades. A 04 linguagem é o que o ser humano tem de mais íntimo e o que representa a sua subjetividade. Não é exagero, portanto, 05 dizer que uma crítica à linguagem do outro é uma arma que fere tanto quanto todas as armas. 06 O preconceito e a intolerância linguísticos revelam comportamento de um falante diante da linguagem de outro e é, 07 pois, um fato de atitude linguística. Como tudo que diz respeito à linguagem, a atitude linguística não pode apenas ser 08 interpretada como um assunto pertinente ao domínio da língua. Antes de tudo, como sabemos bem, a linguagem é 09 social, plena de valores; é axiológica e, por meio dela, conscientemente ou não, o falante mostra a sua ideologia. Por 10 isso, estudar o preconceito e a intolerância é ir além de fatos e opiniões que dizem respeito à língua e sua realização. 11 A metalinguagem intolerante (ou preconceituosa) camufla (ou denuncia) outros preconceitos, de todas as ordens. 12 Isso significa que o preconceito e a intolerância não são somente linguísticos, são também de outra ordem (social, 13 política, religiosa, racial etc.). Embora tudo isso seja verdadeiro, ressaltamos aqui o lado linguístico-discursivo de 14 ambos os fenômenos, a fim de mostrar como eles se alojam no discurso e, muitas vezes, passam sem alarde. 15 primeira vista, pode-se dizer simplesmente que as palavras preconceito e intolerância são sinônimas. Um exame 16 um pouco mais detido, contudo, pode mostrar que preconceito é a ideia, a opinião ou o sentimento que pode conduzir 17 o indivíduo à intolerância, à atitude de não admitir opinião divergente e, por isso, à atitude de reagir com violência ou 18 agressividade a certas situações. Isso indica uma primeira diferença: o traço semântico mais forte registrado no 19 sentido de intolerância é o de ser um comportamento, uma reação explícita a uma ideia ou opinião contra a qual se 20 pode objetar. Não constitui simplesmente uma discordância tácita. Um preconceito, ao contrário, pode existir sem 21 jamais se revelar e, por isso, existe antes da crítica. 22 Professores, estudantes e usuários em geral da língua devem saber reconhecer o preconceito e a intolerância 23 linguísticos para, de um lado, atuar crítica e conscientemente diante de ocorrências desses fenômenos e, de outro, 24 para ajudar a evitar sua manifestação. Tal atitude faz parte da formação integral do cidadão, pois é, também, indicativo 25 de respeito pelas diferenças do outro. A linguagem é um fenômeno multiforme e heteroclítico, que se manifesta 26 diversamente de usuário para usuário, de circunstância para circunstância, mas a atitude dos preconceituosos e 27 intolerantes é homogeneizadora e, portanto, surge para exigir o cumprimento de padrões uniformizadores em 28 detrimento de variáveis importantes, como o respeito pela integridade da pessoa.
LEITE, Marli Quadros. Preconceito e intolerância na linguagem. São Paulo: Contexto, 2008. p.13-14; 20. (Adaptado).
Espaço para rascunho
No trecho “O preconceito e a intolerância linguísticos revelam comportamento de um falante diante da linguagem de outro e é, pois, um fato de atitude linguística.” (linhas 6-7), o termo sublinhado assume o sentido de
- A)causa
- B)oposição
- C)conclusão
- D)finalidade
- E)explicação
UEG20251a faseQuestao 7PortuguêsInterpretação de textoMediaPreconceito e intolerância na linguagem
01 Como a intolerância linguística passa quase despercebida pela opinião pública e não provoca sérios abalos 02 sociais, da mesma forma que aqueles provenientes da intolerância religiosa ou política, parece nem existir. Contudo, a 03 intolerância linguística existe e é tão agressiva quanto outra qualquer, pois atinge o cerne das individualidades. A 04 linguagem é o que o ser humano tem de mais íntimo e o que representa a sua subjetividade. Não é exagero, portanto, 05 dizer que uma crítica à linguagem do outro é uma arma que fere tanto quanto todas as armas. 06 O preconceito e a intolerância linguísticos revelam comportamento de um falante diante da linguagem de outro e é, 07 pois, um fato de atitude linguística. Como tudo que diz respeito à linguagem, a atitude linguística não pode apenas ser 08 interpretada como um assunto pertinente ao domínio da língua. Antes de tudo, como sabemos bem, a linguagem é 09 social, plena de valores; é axiológica e, por meio dela, conscientemente ou não, o falante mostra a sua ideologia. Por 10 isso, estudar o preconceito e a intolerância é ir além de fatos e opiniões que dizem respeito à língua e sua realização. 11 A metalinguagem intolerante (ou preconceituosa) camufla (ou denuncia) outros preconceitos, de todas as ordens. 12 Isso significa que o preconceito e a intolerância não são somente linguísticos, são também de outra ordem (social, 13 política, religiosa, racial etc.). Embora tudo isso seja verdadeiro, ressaltamos aqui o lado linguístico-discursivo de 14 ambos os fenômenos, a fim de mostrar como eles se alojam no discurso e, muitas vezes, passam sem alarde. 15 primeira vista, pode-se dizer simplesmente que as palavras preconceito e intolerância são sinônimas. Um exame 16 um pouco mais detido, contudo, pode mostrar que preconceito é a ideia, a opinião ou o sentimento que pode conduzir 17 o indivíduo à intolerância, à atitude de não admitir opinião divergente e, por isso, à atitude de reagir com violência ou 18 agressividade a certas situações. Isso indica uma primeira diferença: o traço semântico mais forte registrado no 19 sentido de intolerância é o de ser um comportamento, uma reação explícita a uma ideia ou opinião contra a qual se 20 pode objetar. Não constitui simplesmente uma discordância tácita. Um preconceito, ao contrário, pode existir sem 21 jamais se revelar e, por isso, existe antes da crítica. 22 Professores, estudantes e usuários em geral da língua devem saber reconhecer o preconceito e a intolerância 23 linguísticos para, de um lado, atuar crítica e conscientemente diante de ocorrências desses fenômenos e, de outro, 24 para ajudar a evitar sua manifestação. Tal atitude faz parte da formação integral do cidadão, pois é, também, indicativo 25 de respeito pelas diferenças do outro. A linguagem é um fenômeno multiforme e heteroclítico, que se manifesta 26 diversamente de usuário para usuário, de circunstância para circunstância, mas a atitude dos preconceituosos e 27 intolerantes é homogeneizadora e, portanto, surge para exigir o cumprimento de padrões uniformizadores em 28 detrimento de variáveis importantes, como o respeito pela integridade da pessoa.
LEITE, Marli Quadros. Preconceito e intolerância na linguagem. São Paulo: Contexto, 2008. p.13-14; 20. (Adaptado).
Espaço para rascunho
Defende-se, no texto, a seguinte ideia:
- A)O tema “preconceito e intolerância na linguagem” é um dos objetos fundamentais das ciências sociais e humanas, visto que constitui um elemento teórico-conceitual que pode ser levado para o cotidiano, contribuindo para tornar a ciência relevante para o dia a dia dos cidadãos.
- B)A metalinguagem usada no ensino de língua portuguesa reforça os comportamentos de violência simbólica, já que se fundamenta num discurso de ódio que ataca formas linguísticas não eruditas, especialmente aquelas usadas em situações comunicativas informais.
- C)Os linguistas e os cientistas sociais concebem a atitude linguística como um comportamento simbólico fundamental para demarcação de uma comunidade linguística, já que é, por meio dessa conduta, que pessoas dão significado aos seus fenômenos culturais.
- D)A linguagem é o fenômeno responsável por nos tornar humanos, estando na base do nosso pensamento e da nossa autoconsciência como indivíduos, razão pela qual deve ser tomada como o objeto de conhecimento mais importante da educação básica.
- E)A intolerância e o preconceito linguísticos, embora nem sempre percebidos como uma agressão, constituem uma forma de violência social tão danosa quanto outras mais reconhecíveis, já que atacam o âmago da subjetividade das pessoas.
UEG20251a faseQuestao 8PortuguêsTipologia textualMediaPreconceito e intolerância na linguagem
01 Como a intolerância linguística passa quase despercebida pela opinião pública e não provoca sérios abalos 02 sociais, da mesma forma que aqueles provenientes da intolerância religiosa ou política, parece nem existir. Contudo, a 03 intolerância linguística existe e é tão agressiva quanto outra qualquer, pois atinge o cerne das individualidades. A 04 linguagem é o que o ser humano tem de mais íntimo e o que representa a sua subjetividade. Não é exagero, portanto, 05 dizer que uma crítica à linguagem do outro é uma arma que fere tanto quanto todas as armas. 06 O preconceito e a intolerância linguísticos revelam comportamento de um falante diante da linguagem de outro e é, 07 pois, um fato de atitude linguística. Como tudo que diz respeito à linguagem, a atitude linguística não pode apenas ser 08 interpretada como um assunto pertinente ao domínio da língua. Antes de tudo, como sabemos bem, a linguagem é 09 social, plena de valores; é axiológica e, por meio dela, conscientemente ou não, o falante mostra a sua ideologia. Por 10 isso, estudar o preconceito e a intolerância é ir além de fatos e opiniões que dizem respeito à língua e sua realização. 11 A metalinguagem intolerante (ou preconceituosa) camufla (ou denuncia) outros preconceitos, de todas as ordens. 12 Isso significa que o preconceito e a intolerância não são somente linguísticos, são também de outra ordem (social, 13 política, religiosa, racial etc.). Embora tudo isso seja verdadeiro, ressaltamos aqui o lado linguístico-discursivo de 14 ambos os fenômenos, a fim de mostrar como eles se alojam no discurso e, muitas vezes, passam sem alarde. 15 primeira vista, pode-se dizer simplesmente que as palavras preconceito e intolerância são sinônimas. Um exame 16 um pouco mais detido, contudo, pode mostrar que preconceito é a ideia, a opinião ou o sentimento que pode conduzir 17 o indivíduo à intolerância, à atitude de não admitir opinião divergente e, por isso, à atitude de reagir com violência ou 18 agressividade a certas situações. Isso indica uma primeira diferença: o traço semântico mais forte registrado no 19 sentido de intolerância é o de ser um comportamento, uma reação explícita a uma ideia ou opinião contra a qual se 20 pode objetar. Não constitui simplesmente uma discordância tácita. Um preconceito, ao contrário, pode existir sem 21 jamais se revelar e, por isso, existe antes da crítica. 22 Professores, estudantes e usuários em geral da língua devem saber reconhecer o preconceito e a intolerância 23 linguísticos para, de um lado, atuar crítica e conscientemente diante de ocorrências desses fenômenos e, de outro, 24 para ajudar a evitar sua manifestação. Tal atitude faz parte da formação integral do cidadão, pois é, também, indicativo 25 de respeito pelas diferenças do outro. A linguagem é um fenômeno multiforme e heteroclítico, que se manifesta 26 diversamente de usuário para usuário, de circunstância para circunstância, mas a atitude dos preconceituosos e 27 intolerantes é homogeneizadora e, portanto, surge para exigir o cumprimento de padrões uniformizadores em 28 detrimento de variáveis importantes, como o respeito pela integridade da pessoa.
LEITE, Marli Quadros. Preconceito e intolerância na linguagem. São Paulo: Contexto, 2008. p.13-14; 20. (Adaptado).
Espaço para rascunho
Verifica-se que o texto “Preconceito e intolerância na linguagem” – considerando-se sua composição, organização e textualidade – usa predominantemente a seguinte modalidade retórica:
- A)narração, já que o texto apresenta de modo concatenado um conjunto de elementos em torno de um enredo, dando origem à narrativa sobre o tema em questão.
- B)instrução, já que o texto tem como objetivo principal instruir o leitor a respeito do funcionamento de um determinado objeto, apresentando protocolos de procedimento.
- C)injunção, já que o texto tem como base prescrever ao leitor formas de comportamento e de ação, levando-o a tomar determinadas atitudes, sob o risco de sofrer sanções.
- D)argumentação, já que o texto se propõe a expressar uma posição teoricamente fundamentada sobre um determinado tema, apresentando, para isso, alguns argumentos.
- E)descrição, já que o texto exibe, de forma detalhada, as propriedades características de um determinado objeto, oferecendo ao leitor a possibilidade de um melhor reconhecimento.
UEG20251a faseQuestao 9PortuguêsCoesão — valor semântico dos conectivosFacilPreconceito e intolerância na linguagem
01 Como a intolerância linguística passa quase despercebida pela opinião pública e não provoca sérios abalos 02 sociais, da mesma forma que aqueles provenientes da intolerância religiosa ou política, parece nem existir. Contudo, a 03 intolerância linguística existe e é tão agressiva quanto outra qualquer, pois atinge o cerne das individualidades. A 04 linguagem é o que o ser humano tem de mais íntimo e o que representa a sua subjetividade. Não é exagero, portanto, 05 dizer que uma crítica à linguagem do outro é uma arma que fere tanto quanto todas as armas. 06 O preconceito e a intolerância linguísticos revelam comportamento de um falante diante da linguagem de outro e é, 07 pois, um fato de atitude linguística. Como tudo que diz respeito à linguagem, a atitude linguística não pode apenas ser 08 interpretada como um assunto pertinente ao domínio da língua. Antes de tudo, como sabemos bem, a linguagem é 09 social, plena de valores; é axiológica e, por meio dela, conscientemente ou não, o falante mostra a sua ideologia. Por 10 isso, estudar o preconceito e a intolerância é ir além de fatos e opiniões que dizem respeito à língua e sua realização. 11 A metalinguagem intolerante (ou preconceituosa) camufla (ou denuncia) outros preconceitos, de todas as ordens. 12 Isso significa que o preconceito e a intolerância não são somente linguísticos, são também de outra ordem (social, 13 política, religiosa, racial etc.). Embora tudo isso seja verdadeiro, ressaltamos aqui o lado linguístico-discursivo de 14 ambos os fenômenos, a fim de mostrar como eles se alojam no discurso e, muitas vezes, passam sem alarde. 15 primeira vista, pode-se dizer simplesmente que as palavras preconceito e intolerância são sinônimas. Um exame 16 um pouco mais detido, contudo, pode mostrar que preconceito é a ideia, a opinião ou o sentimento que pode conduzir 17 o indivíduo à intolerância, à atitude de não admitir opinião divergente e, por isso, à atitude de reagir com violência ou 18 agressividade a certas situações. Isso indica uma primeira diferença: o traço semântico mais forte registrado no 19 sentido de intolerância é o de ser um comportamento, uma reação explícita a uma ideia ou opinião contra a qual se 20 pode objetar. Não constitui simplesmente uma discordância tácita. Um preconceito, ao contrário, pode existir sem 21 jamais se revelar e, por isso, existe antes da crítica. 22 Professores, estudantes e usuários em geral da língua devem saber reconhecer o preconceito e a intolerância 23 linguísticos para, de um lado, atuar crítica e conscientemente diante de ocorrências desses fenômenos e, de outro, 24 para ajudar a evitar sua manifestação. Tal atitude faz parte da formação integral do cidadão, pois é, também, indicativo 25 de respeito pelas diferenças do outro. A linguagem é um fenômeno multiforme e heteroclítico, que se manifesta 26 diversamente de usuário para usuário, de circunstância para circunstância, mas a atitude dos preconceituosos e 27 intolerantes é homogeneizadora e, portanto, surge para exigir o cumprimento de padrões uniformizadores em 28 detrimento de variáveis importantes, como o respeito pela integridade da pessoa.
LEITE, Marli Quadros. Preconceito e intolerância na linguagem. São Paulo: Contexto, 2008. p.13-14; 20. (Adaptado).
Espaço para rascunho
No enunciado “Tal atitude faz parte da formação integral do cidadão, pois é, também, indicativo de respeito pelas diferenças do outro” (linhas 24-25), a palavra “também” exerce a seguinte função lógico-semântica:
- A)adição de um novo argumento
- B)introdução de uma ideia oposta
- C)expressão de um estranhamento
- D)atribuição de destaque a um fato
- E)estabelecimento de uma comparação
UEG20251a faseQuestao 10PortuguêsPontuaçãoMediaO senso comum e o estudo científico da língua
01 A língua é um objeto de estudo científico, mas é também, e de um modo muito mais amplo, um fenômeno 02 sociocultural, uma instituição, uma coisa sobre a qual toda e qualquer pessoa se acha no direito – legítimo – de falar, 03 rebater, discutir. A linguista britânica Deborah Cameron afirma que nós, seres humanos, não só falamos línguas como 04 também falamos sobre as línguas que falamos. Ela deu a esse fenômeno sociocultural o nome de higiene verbal. 05 Em todos os campos do conhecimento, sempre tem existido um embate entre as ideias que recebem o rótulo de 06 científicas e as que pertencem ao senso comum. Dizemos que um enunciado tem caráter científico quando ele é 07 resultado de investigação empírica (isto é, com dados da realidade), feita segundo metodologias controladas, com 08 levantamento de hipóteses, testagem dessas hipóteses, com confirmação ou negação de seus postulados e 09 reelaboração posterior dos princípios hipotetizados. Por isso, o conhecimento assim obtido é sempre provisório, pode 10 ser criticado, refeito, de modo a fazer avançar o estado do saber atual de determinada área de investigação. A história 11 de qualquer ciência é a história de suas reformulações, do abandono de teorias e métodos por outras teorias e outros 12 métodos. Justamente por tentar seguir princípios e metodologias bem delineadas é que os postulados são, com 13 frequência, contraintuitivos. Como assim? 14 A intuição é uma poderosa ferramenta cognitiva; é a “faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, 15 independentemente de raciocínio e análise” (Houaiss). É uma estratégia de sobrevivência da espécie: intuir é 16 pressentir, antever, com base na experiência vivida ou em informações dadas por nossos sentidos. Contudo, como 17 bem define o dicionário, é algo feito “independentemente de raciocínio ou de análise”. E é aí que a ciência entra em 18 ação, porque o método científico só pode receber esse rótulo – científico – quando se vale do raciocínio e da análise! 19 A força das ideias preconcebidas milenarmente é tão grande que, mesmo depois de aceitos amplamente os 20 postulados científicos, conservamos na linguagem aquelas noções errôneas: até hoje, por exemplo, dizemos que o sol 21 “nasce no Leste” e se “põe no Oeste”, embora saibamos racionalmente que é o movimento de rotação da Terra que 22 provoca o fenômeno de alternância do dia e da noite. Ideias assim são chamadas de estereótipos, do grego stéreos , 23 que significa “sólido tridimensional”. As ideias estereotipadas são as que se cristalizam e ficam sólidas como rocha. 24 Crenças arraigadas ao longo do tempo, estereótipos, superstições, mitos e preconceitos formam um conjunto de 25 ideias que recebem o nome coletivo de senso comum. Ou seja, é uma nebulosa de opiniões que resistem ao tempo e 26 a todo tipo de reflexão crítica, porque, de tão impregnadas no imaginário coletivo, acabam sendo consideradas como 27 “naturais”. 28 Sendo uma parte tão fundamental do ser humano (individual e social), a linguagem não tinha como escapar das 29 investidas do senso comum. E o senso comum linguístico, de um modo poderosíssimo, resiste bravamente às críticas 30 e análises das ciências da linguagem. Muitas ideias falsas vigoram na maioria das sociedades, sobretudo das 31 letradas, a respeito de língua. Seguem alguns exemplos: 32 Algumas línguas são naturalmente mais primitivas, toscas e pobres do que outras. o 33 As palavras que as pessoas usam e que não estão no dicionário simplesmente não existem. o 34 O português é uma das línguas mais difíceis do mundo. o 35 Quem não sabe ler nem escrever não pensa direito. o 36 Por mais “naturais” que possam parecer, todas essas crenças são infundadas e têm sido desconstruídas por 37 linguistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros cientistas desde a segunda metade do século XIX. Elas 38 continuam vivas, porém, no senso comum e muitas vezes, até infelizmente, onde deveriam ser denunciadas e 39 combatidas: no ensino de língua materna e/ou de línguas estrangeiras.
BAGNO, Marcos. Língua, linguagem, linguística: pondo os pingos nos ii. São Paulo: Parábola, 2014. p. 27-30. (Adaptado).
No terceiro parágrafo do texto, os usos de aspas servem para
- A)indicar crítica e ironia ao discurso que é citado no enunciado.
- B)destacar expressões consideradas fora do contexto habitual.
- C)fazer referência ao título de outra obra citada no excerto textual.
- D)exprimir a proximidade do enunciador com o discurso mencionado.
- E)demarcar trechos com discurso direto, isto é, citados literalmente.
UEG20251a faseQuestao 11PortuguêsCoesão e referênciaMediaO senso comum e o estudo científico da língua
01 A língua é um objeto de estudo científico, mas é também, e de um modo muito mais amplo, um fenômeno 02 sociocultural, uma instituição, uma coisa sobre a qual toda e qualquer pessoa se acha no direito – legítimo – de falar, 03 rebater, discutir. A linguista britânica Deborah Cameron afirma que nós, seres humanos, não só falamos línguas como 04 também falamos sobre as línguas que falamos. Ela deu a esse fenômeno sociocultural o nome de higiene verbal. 05 Em todos os campos do conhecimento, sempre tem existido um embate entre as ideias que recebem o rótulo de 06 científicas e as que pertencem ao senso comum. Dizemos que um enunciado tem caráter científico quando ele é 07 resultado de investigação empírica (isto é, com dados da realidade), feita segundo metodologias controladas, com 08 levantamento de hipóteses, testagem dessas hipóteses, com confirmação ou negação de seus postulados e 09 reelaboração posterior dos princípios hipotetizados. Por isso, o conhecimento assim obtido é sempre provisório, pode 10 ser criticado, refeito, de modo a fazer avançar o estado do saber atual de determinada área de investigação. A história 11 de qualquer ciência é a história de suas reformulações, do abandono de teorias e métodos por outras teorias e outros 12 métodos. Justamente por tentar seguir princípios e metodologias bem delineadas é que os postulados são, com 13 frequência, contraintuitivos. Como assim? 14 A intuição é uma poderosa ferramenta cognitiva; é a “faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, 15 independentemente de raciocínio e análise” (Houaiss). É uma estratégia de sobrevivência da espécie: intuir é 16 pressentir, antever, com base na experiência vivida ou em informações dadas por nossos sentidos. Contudo, como 17 bem define o dicionário, é algo feito “independentemente de raciocínio ou de análise”. E é aí que a ciência entra em 18 ação, porque o método científico só pode receber esse rótulo – científico – quando se vale do raciocínio e da análise! 19 A força das ideias preconcebidas milenarmente é tão grande que, mesmo depois de aceitos amplamente os 20 postulados científicos, conservamos na linguagem aquelas noções errôneas: até hoje, por exemplo, dizemos que o sol 21 “nasce no Leste” e se “põe no Oeste”, embora saibamos racionalmente que é o movimento de rotação da Terra que 22 provoca o fenômeno de alternância do dia e da noite. Ideias assim são chamadas de estereótipos, do grego stéreos , 23 que significa “sólido tridimensional”. As ideias estereotipadas são as que se cristalizam e ficam sólidas como rocha. 24 Crenças arraigadas ao longo do tempo, estereótipos, superstições, mitos e preconceitos formam um conjunto de 25 ideias que recebem o nome coletivo de senso comum. Ou seja, é uma nebulosa de opiniões que resistem ao tempo e 26 a todo tipo de reflexão crítica, porque, de tão impregnadas no imaginário coletivo, acabam sendo consideradas como 27 “naturais”. 28 Sendo uma parte tão fundamental do ser humano (individual e social), a linguagem não tinha como escapar das 29 investidas do senso comum. E o senso comum linguístico, de um modo poderosíssimo, resiste bravamente às críticas 30 e análises das ciências da linguagem. Muitas ideias falsas vigoram na maioria das sociedades, sobretudo das 31 letradas, a respeito de língua. Seguem alguns exemplos: 32 Algumas línguas são naturalmente mais primitivas, toscas e pobres do que outras. o 33 As palavras que as pessoas usam e que não estão no dicionário simplesmente não existem. o 34 O português é uma das línguas mais difíceis do mundo. o 35 Quem não sabe ler nem escrever não pensa direito. o 36 Por mais “naturais” que possam parecer, todas essas crenças são infundadas e têm sido desconstruídas por 37 linguistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros cientistas desde a segunda metade do século XIX. Elas 38 continuam vivas, porém, no senso comum e muitas vezes, até infelizmente, onde deveriam ser denunciadas e 39 combatidas: no ensino de língua materna e/ou de línguas estrangeiras.
BAGNO, Marcos. Língua, linguagem, linguística: pondo os pingos nos ii. São Paulo: Parábola, 2014. p. 27-30. (Adaptado).
A retomada da expressão “Muitas ideias falsas” (linha 30) pelo item “essas crenças” (linha 36) é feita pelo mecanismo de
- A)elipse nominal
- B)repetição lexical
- C)coesão referencial
- D)coerência sequencial
- E)concordância nominal
UEG20251a faseQuestao 12PortuguêsFiguras de linguagemMediaO senso comum e o estudo científico da língua
01 A língua é um objeto de estudo científico, mas é também, e de um modo muito mais amplo, um fenômeno 02 sociocultural, uma instituição, uma coisa sobre a qual toda e qualquer pessoa se acha no direito – legítimo – de falar, 03 rebater, discutir. A linguista britânica Deborah Cameron afirma que nós, seres humanos, não só falamos línguas como 04 também falamos sobre as línguas que falamos. Ela deu a esse fenômeno sociocultural o nome de higiene verbal. 05 Em todos os campos do conhecimento, sempre tem existido um embate entre as ideias que recebem o rótulo de 06 científicas e as que pertencem ao senso comum. Dizemos que um enunciado tem caráter científico quando ele é 07 resultado de investigação empírica (isto é, com dados da realidade), feita segundo metodologias controladas, com 08 levantamento de hipóteses, testagem dessas hipóteses, com confirmação ou negação de seus postulados e 09 reelaboração posterior dos princípios hipotetizados. Por isso, o conhecimento assim obtido é sempre provisório, pode 10 ser criticado, refeito, de modo a fazer avançar o estado do saber atual de determinada área de investigação. A história 11 de qualquer ciência é a história de suas reformulações, do abandono de teorias e métodos por outras teorias e outros 12 métodos. Justamente por tentar seguir princípios e metodologias bem delineadas é que os postulados são, com 13 frequência, contraintuitivos. Como assim? 14 A intuição é uma poderosa ferramenta cognitiva; é a “faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, 15 independentemente de raciocínio e análise” (Houaiss). É uma estratégia de sobrevivência da espécie: intuir é 16 pressentir, antever, com base na experiência vivida ou em informações dadas por nossos sentidos. Contudo, como 17 bem define o dicionário, é algo feito “independentemente de raciocínio ou de análise”. E é aí que a ciência entra em 18 ação, porque o método científico só pode receber esse rótulo – científico – quando se vale do raciocínio e da análise! 19 A força das ideias preconcebidas milenarmente é tão grande que, mesmo depois de aceitos amplamente os 20 postulados científicos, conservamos na linguagem aquelas noções errôneas: até hoje, por exemplo, dizemos que o sol 21 “nasce no Leste” e se “põe no Oeste”, embora saibamos racionalmente que é o movimento de rotação da Terra que 22 provoca o fenômeno de alternância do dia e da noite. Ideias assim são chamadas de estereótipos, do grego stéreos , 23 que significa “sólido tridimensional”. As ideias estereotipadas são as que se cristalizam e ficam sólidas como rocha. 24 Crenças arraigadas ao longo do tempo, estereótipos, superstições, mitos e preconceitos formam um conjunto de 25 ideias que recebem o nome coletivo de senso comum. Ou seja, é uma nebulosa de opiniões que resistem ao tempo e 26 a todo tipo de reflexão crítica, porque, de tão impregnadas no imaginário coletivo, acabam sendo consideradas como 27 “naturais”. 28 Sendo uma parte tão fundamental do ser humano (individual e social), a linguagem não tinha como escapar das 29 investidas do senso comum. E o senso comum linguístico, de um modo poderosíssimo, resiste bravamente às críticas 30 e análises das ciências da linguagem. Muitas ideias falsas vigoram na maioria das sociedades, sobretudo das 31 letradas, a respeito de língua. Seguem alguns exemplos: 32 Algumas línguas são naturalmente mais primitivas, toscas e pobres do que outras. o 33 As palavras que as pessoas usam e que não estão no dicionário simplesmente não existem. o 34 O português é uma das línguas mais difíceis do mundo. o 35 Quem não sabe ler nem escrever não pensa direito. o 36 Por mais “naturais” que possam parecer, todas essas crenças são infundadas e têm sido desconstruídas por 37 linguistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros cientistas desde a segunda metade do século XIX. Elas 38 continuam vivas, porém, no senso comum e muitas vezes, até infelizmente, onde deveriam ser denunciadas e 39 combatidas: no ensino de língua materna e/ou de línguas estrangeiras.
BAGNO, Marcos. Língua, linguagem, linguística: pondo os pingos nos ii. São Paulo: Parábola, 2014. p. 27-30. (Adaptado).
No trecho “nós, seres humanos, não só falamos línguas como também falamos sobre as línguas que falamos” (linhas 3-4), o emprego repetitivo das palavras “falamos” e “línguas” demonstra:
- A)monotonia no emprego icônico de termos.
- B)uso de trocadilho para impactar o discurso.
- C)intento de criar rima para dar ritmo ao texto.
- D)pleonasmo vicioso por redundância vocabular.
- E)desconhecimento de sinônimos para as palavras.
UEG20251a faseQuestao 13PortuguêsInterpretação de textoMediaO senso comum e o estudo científico da língua
01 A língua é um objeto de estudo científico, mas é também, e de um modo muito mais amplo, um fenômeno 02 sociocultural, uma instituição, uma coisa sobre a qual toda e qualquer pessoa se acha no direito – legítimo – de falar, 03 rebater, discutir. A linguista britânica Deborah Cameron afirma que nós, seres humanos, não só falamos línguas como 04 também falamos sobre as línguas que falamos. Ela deu a esse fenômeno sociocultural o nome de higiene verbal. 05 Em todos os campos do conhecimento, sempre tem existido um embate entre as ideias que recebem o rótulo de 06 científicas e as que pertencem ao senso comum. Dizemos que um enunciado tem caráter científico quando ele é 07 resultado de investigação empírica (isto é, com dados da realidade), feita segundo metodologias controladas, com 08 levantamento de hipóteses, testagem dessas hipóteses, com confirmação ou negação de seus postulados e 09 reelaboração posterior dos princípios hipotetizados. Por isso, o conhecimento assim obtido é sempre provisório, pode 10 ser criticado, refeito, de modo a fazer avançar o estado do saber atual de determinada área de investigação. A história 11 de qualquer ciência é a história de suas reformulações, do abandono de teorias e métodos por outras teorias e outros 12 métodos. Justamente por tentar seguir princípios e metodologias bem delineadas é que os postulados são, com 13 frequência, contraintuitivos. Como assim? 14 A intuição é uma poderosa ferramenta cognitiva; é a “faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, 15 independentemente de raciocínio e análise” (Houaiss). É uma estratégia de sobrevivência da espécie: intuir é 16 pressentir, antever, com base na experiência vivida ou em informações dadas por nossos sentidos. Contudo, como 17 bem define o dicionário, é algo feito “independentemente de raciocínio ou de análise”. E é aí que a ciência entra em 18 ação, porque o método científico só pode receber esse rótulo – científico – quando se vale do raciocínio e da análise! 19 A força das ideias preconcebidas milenarmente é tão grande que, mesmo depois de aceitos amplamente os 20 postulados científicos, conservamos na linguagem aquelas noções errôneas: até hoje, por exemplo, dizemos que o sol 21 “nasce no Leste” e se “põe no Oeste”, embora saibamos racionalmente que é o movimento de rotação da Terra que 22 provoca o fenômeno de alternância do dia e da noite. Ideias assim são chamadas de estereótipos, do grego stéreos , 23 que significa “sólido tridimensional”. As ideias estereotipadas são as que se cristalizam e ficam sólidas como rocha. 24 Crenças arraigadas ao longo do tempo, estereótipos, superstições, mitos e preconceitos formam um conjunto de 25 ideias que recebem o nome coletivo de senso comum. Ou seja, é uma nebulosa de opiniões que resistem ao tempo e 26 a todo tipo de reflexão crítica, porque, de tão impregnadas no imaginário coletivo, acabam sendo consideradas como 27 “naturais”. 28 Sendo uma parte tão fundamental do ser humano (individual e social), a linguagem não tinha como escapar das 29 investidas do senso comum. E o senso comum linguístico, de um modo poderosíssimo, resiste bravamente às críticas 30 e análises das ciências da linguagem. Muitas ideias falsas vigoram na maioria das sociedades, sobretudo das 31 letradas, a respeito de língua. Seguem alguns exemplos: 32 Algumas línguas são naturalmente mais primitivas, toscas e pobres do que outras. o 33 As palavras que as pessoas usam e que não estão no dicionário simplesmente não existem. o 34 O português é uma das línguas mais difíceis do mundo. o 35 Quem não sabe ler nem escrever não pensa direito. o 36 Por mais “naturais” que possam parecer, todas essas crenças são infundadas e têm sido desconstruídas por 37 linguistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros cientistas desde a segunda metade do século XIX. Elas 38 continuam vivas, porém, no senso comum e muitas vezes, até infelizmente, onde deveriam ser denunciadas e 39 combatidas: no ensino de língua materna e/ou de línguas estrangeiras.
BAGNO, Marcos. Língua, linguagem, linguística: pondo os pingos nos ii. São Paulo: Parábola, 2014. p. 27-30. (Adaptado).
É ideia defendida no texto:
- A)O senso comum, por ser baseado na dedução e na indução, constitui um dos principais meios de conhecimento de uma sociedade, sendo, por isso mesmo, o sistema de saber mais confiável e eficaz que cada pessoa tem para orientar suas decisões sociais.
- B)Os estereótipos relativos aos bens simbólicos de uma sociedade devem ser vistos como repositórios de saberes tradicionais, razão pela qual devem ser valorizados como patrimônios culturais que preservam a memória de um povo, mesmo se forem cientificamente invalidados.
- C)O conhecimento científico, sendo uma das maneiras encontradas para expansão do nosso controle sobre a natureza, nasce da nossa capacidade de fazer perguntas e da nossa irrefreável curiosidade, sendo, desse modo, uma resposta cultural à nossa intuição, que é epigenética.
- D)Por ser um fato sociocultural da vida cotidiana, a língua recebe diversos conceitos, ideias e crenças provenientes do senso comum, os quais, embora sejam amplamente contestados por análises e descobertas científicas, são dificilmente abandonados pela comunidade de falantes.
- E)A ciência, sendo uma das principais atividades humanas, é o fenômeno sociocultural responsável por determinar a base ética de uma sociedade, apontando, por meio de experimentos científicos, as verdades e os valores que devem guiar eticamente as relações sociais e políticas.
UEG20251a faseQuestao 15PortuguêsTipologia textualMediaTexto 0101 Minha mãe entrou escoltada numa sala que parecia a de uma repartição pública. Tiraram o capuz da “cliente”. Era 02 assim que chamavam os presos. Depois do interrogatório, viravam “pacientes”. A repressão política em 1971 estava 03 metódica, com um organograma padronizado em todos os estados. Quem prendia não era quem interrogava ou 04 torturava. No início, não interrogavam sobre o passado. A prioridade era o presente e o futuro. Se o preso tinha 05 treinado em Cuba, na China ou na Argélia, o matavam em “campo”, na rua.Ele “viajava”, como se referiam. Em 1971, 06 nem era mais preso. Era um “cubano”, diziam. Não queriam correr o risco de ter que trocá-los dias ou meses depois 07 por um diplomata sequestrado. E foram quatro ao todo: um cônsul japonês, o embaixador americano, o alemão e o 08 suíço, Giovanni Bucher. 09 Bucher foi libertado quatro dias antes da prisão dos meus pais. Tinha sido sequestrado no dia 7 de dezembro de 101970 pela VPR a caminho da embaixada no Rio, e levado para Rocha Miranda, subúrbio carioca. A organização que o 11 sequestrou exigiu setenta presos políticos em troca. O governo não cedeu. O impasse durou até o dia 16 de janeiro. A 12 lista inicial foi recusada. [...] Meu pai sabia desse sequestro. Meu pai sabia intimidade desse sequestro? Quando 13 noticiavam pela TV a demora e o sofrimento que o diplomata devia estar passando nas mãos de terroristas, ele 14 debochava: 15 – Tá nada, está se divertindo adoidado, fumando seus charutos. 16 Minha mãe reparou: foi a primeira e única vez que meu pai falou de algo que ocorria nas entranhas da luta 17 armada. Foi a primeira e única vez que deixou escapar uma observação que comprometeria a sua segurança e a 18 nossa. Será que ele foi preso por causa disso? Comentou que o grandalhão Bucher fumava charutos e jogava cartas 19 no cativeiro? Tinha microfones em casa, espiões nos bares, no escritório dele? [...] 20 Minha mãe, na prisão, fez um exercício de memória para tentar entender ou encontrar alguma pista de por que 21 ela, minha irmã de 15 anos, a Eliane, e o meu pai foram detidos. Ele poderia ter dito de brincadeira, piadista que era, 22 um gozador, a tal frase sobre o embaixador suíço. Prenderam um gozador? PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. p.135-136. (Adaptado). Espaço para rascunho
Texto 0201 Hilda [...] veio até a porta do nosso quarto para dizer, confusa e embaraçada, que havia uns homens querendo 02 falar comigo. O sentimento que me dominou, ao chegar à sala e encontrar os policiais, foi de impaciência: vi-me 03 diante de um incômodo que prometia durar um bom par de horas. Havia algo estranho no modo nervoso como 04 aqueles homens sorriam, e a amabilidade exagerada não deixava de trair uma promessa de agressão. [...]. Eles 05 diziam que as autoridades militares queriam me fazer algumas perguntas, e eu, muito mais ingênuo do que eles 06 podiam imaginar, acreditei. Parecia-lhes pouco provável, no entanto, que alguém levasse tal eufemismo ao pé da 07 letra, e, enquanto eu tentava conseguir detalhes sobre o que ia se passar, eles iam abandonando relutantemente a 08 expectativa de que talvez eu reagisse a uma prisão que nem sequer sabia que estava se efetuando. Um deles, então, 09 fez uma sugestão que primeiro me pareceu estapafúrdia mas logo me encheu de medo: “É melhor levar sua escova 10 de dentes”. Ainda tentei pedir explicações para esse conselho, mas eles deram mostra de que já não queriam perder 11 tempo. [...] 12 claro que nem [Gilberto] Gil nem eu [Caetano Veloso] imaginávamos que seríamos presos. Não havia 13 expectativa de que nada de grave pudesse acontecer conosco. Exceto o aviso feito pelo humorista Jô Soares e 14 aquela profecia saída da boca de um conhecido suspostamente em transe e que nos tinha sido relatada meses antes 15 por Roberto Pinho (profecia esta que afinal se revelou assustadoramente precisa quanto às datas e às 16 circunstâncias), nós não tínhamos muito por que pensar que os militares queriam nos prender. Estávamos tão 17 habituados a hostilizações por parte da esquerda, éramos tantas vezes acusados de alienados e americanizados, 18 que, quando me vi diante daqueles policiais, imaginei que estavam nos levando para uma conversa com algum oficial 19 de São Paulo, o qual nos trataria como rapazes interessados apenas em divertir o público, e, no máximo, exigiria 20 explicações sobre a nossa participação na famosa passeata dos 100 mil. Essa passeata contara com a quase 21 totalidade da classe artística brasileira, de modo que não seria difícil explicar nossa adesão como resultado de uma 22 pressão natural de grupo. VELOSO, Caetano. Verdade tropical. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 350-351. (Adaptado).
Texto 03
Em 02 de março de 2025, o filme Ainda estou aqui , dirigido por Walter Salles, foi premiado com o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Trata-se da primeira produção cinematográfica brasileira a conquistar o prêmio, além de contar com mais duas indicações: Melhor Atriz e Melhor Filme. A produção é uma adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva, de mesmo título, publicado em 2015. Ambas as obras narram a trajetória de vida de Eunice Paiva, após o desaparecimento de seu esposo, Rubens Paiva, em janeiro de 1971, durante a Ditadura Militar.
Rubens Paiva era um ex-deputado trabalhista, que teve seu mandado cassado após o golpe de 1964. Em 20 de janeiro de 1971, foi sequestrado por militares, enquanto estava em casa com a família. Foi torturado por dois dias e assassinado em seguida, se tornando mais uma vítima da violência de Estado praticada pelo regime que governou o país entre 1964 e 1985. Em 1996, depois de sancionada a chamada Lei dos Desaparecidos, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, Eunice Paiva finalmente conseguiu a certidão de óbito do marido. A Lei n.º 9.149, de 4 de dezembro de 1995, garantiu às famílias de pessoas desaparecidas, que estiveram envolvidas em alguma atividade política durante o regime militar, o reconhecimento oficial da morte de seus entes.
Tanto o livro quanto o filme tematizam um momento doloroso e terrível de nossa história. Nesse sentido, vemos o quanto as artes podem constituir elementos fundamentais para o nosso contínuo processo de formação social, cultural, política e histórica, desempenhando diversos papeis. Elas constituem espaços de reflexividade, onde nossa sociedade, por meio de diversas linguagens, pode se ver, se questionar, se formar, se transformar.
Os textos 01 e 02 apresentam similaridade na forma discursiva e literária, sendo construídos a partir de uma mesma tipologia textual predominante. Nesse sentido, verifica-se que ambos os textos
- A)cumprem o papel de descrever os modos de ação de um determinado grupo social, constituindo um acervo de dados para análise e a compreensão do modo como funciona um determinado contexto sociocultural.
- B)são estruturados numa linguagem lírica concatenada e ritmada, na qual cada palavra assume um lugar de destaque no compasso sonoro, criando assim uma possibilidade de leitura sinestésica do texto.
- C)constituem exemplo do que pode ser chamado de literatura memorialística, um tipo de produção que se caracteriza pela narrativa de acontecimentos vividos pelo narrador e/ou por pessoas próximas.
- D)são construídos por meio de unidades expositivas que visam demonstrar um determinado estado da realidade, sem a inclusão de elementos que expressem avaliação, subjetividade e afetividade.
- E)apresentam uma crítica teórica fundamentada a um determinado objeto histórico-cultural, enumerando para isso uma sequência de análises baseada em argumentos exemplificativos irrefutáveis.
UEG20251a faseQuestao 18PortuguêsLinguagem e semióticaFacilTexto 0101 Minha mãe entrou escoltada numa sala que parecia a de uma repartição pública. Tiraram o capuz da “cliente”. Era 02 assim que chamavam os presos. Depois do interrogatório, viravam “pacientes”. A repressão política em 1971 estava 03 metódica, com um organograma padronizado em todos os estados. Quem prendia não era quem interrogava ou 04 torturava. No início, não interrogavam sobre o passado. A prioridade era o presente e o futuro. Se o preso tinha 05 treinado em Cuba, na China ou na Argélia, o matavam em “campo”, na rua.Ele “viajava”, como se referiam. Em 1971, 06 nem era mais preso. Era um “cubano”, diziam. Não queriam correr o risco de ter que trocá-los dias ou meses depois 07 por um diplomata sequestrado. E foram quatro ao todo: um cônsul japonês, o embaixador americano, o alemão e o 08 suíço, Giovanni Bucher. 09 Bucher foi libertado quatro dias antes da prisão dos meus pais. Tinha sido sequestrado no dia 7 de dezembro de 101970 pela VPR a caminho da embaixada no Rio, e levado para Rocha Miranda, subúrbio carioca. A organização que o 11 sequestrou exigiu setenta presos políticos em troca. O governo não cedeu. O impasse durou até o dia 16 de janeiro. A 12 lista inicial foi recusada. [...] Meu pai sabia desse sequestro. Meu pai sabia intimidade desse sequestro? Quando 13 noticiavam pela TV a demora e o sofrimento que o diplomata devia estar passando nas mãos de terroristas, ele 14 debochava: 15 – Tá nada, está se divertindo adoidado, fumando seus charutos. 16 Minha mãe reparou: foi a primeira e única vez que meu pai falou de algo que ocorria nas entranhas da luta 17 armada. Foi a primeira e única vez que deixou escapar uma observação que comprometeria a sua segurança e a 18 nossa. Será que ele foi preso por causa disso? Comentou que o grandalhão Bucher fumava charutos e jogava cartas 19 no cativeiro? Tinha microfones em casa, espiões nos bares, no escritório dele? [...] 20 Minha mãe, na prisão, fez um exercício de memória para tentar entender ou encontrar alguma pista de por que 21 ela, minha irmã de 15 anos, a Eliane, e o meu pai foram detidos. Ele poderia ter dito de brincadeira, piadista que era, 22 um gozador, a tal frase sobre o embaixador suíço. Prenderam um gozador? PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. p.135-136. (Adaptado). Espaço para rascunho
Texto 0201 Hilda [...] veio até a porta do nosso quarto para dizer, confusa e embaraçada, que havia uns homens querendo 02 falar comigo. O sentimento que me dominou, ao chegar à sala e encontrar os policiais, foi de impaciência: vi-me 03 diante de um incômodo que prometia durar um bom par de horas. Havia algo estranho no modo nervoso como 04 aqueles homens sorriam, e a amabilidade exagerada não deixava de trair uma promessa de agressão. [...]. Eles 05 diziam que as autoridades militares queriam me fazer algumas perguntas, e eu, muito mais ingênuo do que eles 06 podiam imaginar, acreditei. Parecia-lhes pouco provável, no entanto, que alguém levasse tal eufemismo ao pé da 07 letra, e, enquanto eu tentava conseguir detalhes sobre o que ia se passar, eles iam abandonando relutantemente a 08 expectativa de que talvez eu reagisse a uma prisão que nem sequer sabia que estava se efetuando. Um deles, então, 09 fez uma sugestão que primeiro me pareceu estapafúrdia mas logo me encheu de medo: “É melhor levar sua escova 10 de dentes”. Ainda tentei pedir explicações para esse conselho, mas eles deram mostra de que já não queriam perder 11 tempo. [...] 12 claro que nem [Gilberto] Gil nem eu [Caetano Veloso] imaginávamos que seríamos presos. Não havia 13 expectativa de que nada de grave pudesse acontecer conosco. Exceto o aviso feito pelo humorista Jô Soares e 14 aquela profecia saída da boca de um conhecido suspostamente em transe e que nos tinha sido relatada meses antes 15 por Roberto Pinho (profecia esta que afinal se revelou assustadoramente precisa quanto às datas e às 16 circunstâncias), nós não tínhamos muito por que pensar que os militares queriam nos prender. Estávamos tão 17 habituados a hostilizações por parte da esquerda, éramos tantas vezes acusados de alienados e americanizados, 18 que, quando me vi diante daqueles policiais, imaginei que estavam nos levando para uma conversa com algum oficial 19 de São Paulo, o qual nos trataria como rapazes interessados apenas em divertir o público, e, no máximo, exigiria 20 explicações sobre a nossa participação na famosa passeata dos 100 mil. Essa passeata contara com a quase 21 totalidade da classe artística brasileira, de modo que não seria difícil explicar nossa adesão como resultado de uma 22 pressão natural de grupo. VELOSO, Caetano. Verdade tropical. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 350-351. (Adaptado).
Texto 03
Em 02 de março de 2025, o filme Ainda estou aqui , dirigido por Walter Salles, foi premiado com o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Trata-se da primeira produção cinematográfica brasileira a conquistar o prêmio, além de contar com mais duas indicações: Melhor Atriz e Melhor Filme. A produção é uma adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva, de mesmo título, publicado em 2015. Ambas as obras narram a trajetória de vida de Eunice Paiva, após o desaparecimento de seu esposo, Rubens Paiva, em janeiro de 1971, durante a Ditadura Militar.
Rubens Paiva era um ex-deputado trabalhista, que teve seu mandado cassado após o golpe de 1964. Em 20 de janeiro de 1971, foi sequestrado por militares, enquanto estava em casa com a família. Foi torturado por dois dias e assassinado em seguida, se tornando mais uma vítima da violência de Estado praticada pelo regime que governou o país entre 1964 e 1985. Em 1996, depois de sancionada a chamada Lei dos Desaparecidos, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, Eunice Paiva finalmente conseguiu a certidão de óbito do marido. A Lei n.º 9.149, de 4 de dezembro de 1995, garantiu às famílias de pessoas desaparecidas, que estiveram envolvidas em alguma atividade política durante o regime militar, o reconhecimento oficial da morte de seus entes.
Tanto o livro quanto o filme tematizam um momento doloroso e terrível de nossa história. Nesse sentido, vemos o quanto as artes podem constituir elementos fundamentais para o nosso contínuo processo de formação social, cultural, política e histórica, desempenhando diversos papeis. Elas constituem espaços de reflexividade, onde nossa sociedade, por meio de diversas linguagens, pode se ver, se questionar, se formar, se transformar.
O filme Ainda estou aqui constitui uma produção cinematográfica de roteiro adaptado. A transposição do livro para o cinema resulta de uma ação de linguagem denominada de
- A)reestruturação metalinguística
- B)cinematografia modernista
- C)reprodução audiovisual
- D)tradução intersemiótica
- E)transliteração fílmica
UEG20241a faseQuestao 6PortuguêsInterpretação de texto (TIC)MediaA construção social do ser humano
A organização instintiva do homem pode ser descrita como subdesenvolvida, quando comparada com a de outros mamíferos superiores. O homem tem impulsos, mas estes são consideravelmente desprovidos de especialização e direção. Isso significa que o organismo humano é capaz de aplicar o equipamento que possui por construção a uma ampla escala de atividades e, além disso, constantemente variável e em variação. Essa peculiaridade do organismo humano se funda em seu desenvolvimento ontogenético. Se examinarmos a questão em termos de desenvolvimento orgânico, é possível dizer que o período fetal no ser humano se estende por todo o primeiro ano após o nascimento. Importantes desenvolvimentos orgânicos, que no animal se completam no corpo da mãe, se efetuam no lactente humano depois que se separa do útero. Nessa ocasião, porém, a criança humana não somente está no mundo exterior, mas se inter-relaciona com este de muitos modos complexos. O organismo humano, por conseguinte, ainda está se desenvolvendo biologicamente quando já se acha em relação com seu ambiente. Em outras palavras, o processo de se tornar homem se efetua na correlação com o ambiente. Esse ambiente é ao mesmo tempo um ambiente natural e humano. Isto é, o ser humano em desenvolvimento não somente se correlaciona com um ambiente natural particular, mas também com uma ordem cultural e social específica, que é mediatizada para ele pelos outros significativos que o têm a seu cargo. Não apenas a sobrevivência da criança humana depende de certos dispositivos sociais, mas a direção de seu desenvolvimento orgânico é socialmente determinada. Desde o momento do nascimento, o desenvolvimento orgânico do homem, e na verdade uma grande parte de seu ser biológico enquanto tal, está submetido a uma contínua interferência socialmente determinada. Apesar dos evidentes limites fisiológicos estabelecidos para a gama de possíveis e diferentes maneiras de se tornar homem nessa dupla correlação com o ambiente, o organismo humano manifesta uma imensa plasticidade em suas respostas às forças ambientais que atuam sobre ele. Isso é particularmente claro quando se observa a flexibilidade da constituição biológica do homem ao ser submetida a uma multiplicidade de determinações socioculturais. É um lugar comum etnológico dizer que as maneiras de se tornar e de ser humano são tão numerosas quanto as culturas humanas. A humanização é variável em sentido sociocultural. Em outras palavras, não existe natureza humana no sentido de um substrato biologicamente fixo que determine a variabilidade das formações socioculturais. Há somente a natureza humana, no sentido de constantes antropológicas (por exemplo, abertura para o mundo e plasticidade da estrutura dos instintos) que delimita e permite as formações socioculturais do homem. Mas a forma específica em que essa humanização se molda é determinada por essas formações socioculturais, sendo relativa às suas numerosas variações. Embora seja possível dizer que o homem tem uma natureza, é mais significativo dizer que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo.
Essa afirmação segundo a qual o homem se produz a si mesmo de modo algum implica uma espécie de visão prometeica do indivíduo solitário. A autoprodução do homem é sempre e necessariamente um empreendimento social. Os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de suas formações socioculturais e psicológicas. Nenhuma dessas formações pode ser entendida como produto da constituição biológica do homem, que fornece somente os limites externos da atividade produtiva humana. Assim como é impossível que o homem se desenvolva como homem no isolamento, igualmente é impossível que o homem isolado produza um ambiente humano. O ser humano solitário é um ser no nível animal (que, está claro, o homem partilha com outros animais). Logo que observamos fenômenos especificamente humanos entramos no reino do social. A humanidade específica do homem e sua sociabilidade estão inextrincavelmente entrelaçadas. O homo sapiens é sempre, e na mesma medida, homo socius. BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 68-73. [Adaptado].
É ideia defendida no texto:
- A)O organismo humano é insuficiente para prover aos homens uma condição básica de existência e sobrevivência, razão pela qual o homo sapiens teve de construir uma ampla gama de instrumentos técnicos para suprir a deficiência de seu corpo em relação aos animais de grande porte, e assim poder competir por alimento e abrigo.
- B)O homo sapiens, por ter um substrato biológico mais sofisticado, emergiu como um ser preparado para enfrentar múltiplos desafios existenciais, sendo essa multivalência o fator responsável por levá-lo a sobrepor os outros ancestrais que se extinguiram ao longo da saga dos homens, como, por exemplo, o homem de Neandertal.
- C)O ser humano é construído a partir da interação do organismo biológico com o ambiente natural e social, sendo o elemento biológico responsável por fornecer os limites da ação produtiva humana e o elemento social, sempre variável, responsável por constituir a humanização e a base do que se chama de natureza humana.
- D)Os seres humanos são biologicamente equipados com os meios necessários para a construção e realização do homem, sendo o aparelho da linguagem o elemento natural fundante da condição do homo sapiens e o recurso responsável por distingui-lo dos demais animais, em especial dos primatas.
- E)Os indivíduos humanos constroem suas próprias condições de existência, já que cada um dispõe de um organismo biologicamente preparado para o enfrentamento da hostilidade do ambiente natural e para a competição por recursos com outros membros de sua própria espécie.
UEG20241a faseQuestao 7PortuguêsTipologia textualFacilA construção social do ser humano
A organização instintiva do homem pode ser descrita como subdesenvolvida, quando comparada com a de outros mamíferos superiores. O homem tem impulsos, mas estes são consideravelmente desprovidos de especialização e direção. Isso significa que o organismo humano é capaz de aplicar o equipamento que possui por construção a uma ampla escala de atividades e, além disso, constantemente variável e em variação. Essa peculiaridade do organismo humano se funda em seu desenvolvimento ontogenético. Se examinarmos a questão em termos de desenvolvimento orgânico, é possível dizer que o período fetal no ser humano se estende por todo o primeiro ano após o nascimento. Importantes desenvolvimentos orgânicos, que no animal se completam no corpo da mãe, se efetuam no lactente humano depois que se separa do útero. Nessa ocasião, porém, a criança humana não somente está no mundo exterior, mas se inter-relaciona com este de muitos modos complexos. O organismo humano, por conseguinte, ainda está se desenvolvendo biologicamente quando já se acha em relação com seu ambiente. Em outras palavras, o processo de se tornar homem se efetua na correlação com o ambiente. Esse ambiente é ao mesmo tempo um ambiente natural e humano. Isto é, o ser humano em desenvolvimento não somente se correlaciona com um ambiente natural particular, mas também com uma ordem cultural e social específica, que é mediatizada para ele pelos outros significativos que o têm a seu cargo. Não apenas a sobrevivência da criança humana depende de certos dispositivos sociais, mas a direção de seu desenvolvimento orgânico é socialmente determinada. Desde o momento do nascimento, o desenvolvimento orgânico do homem, e na verdade uma grande parte de seu ser biológico enquanto tal, está submetido a uma contínua interferência socialmente determinada. Apesar dos evidentes limites fisiológicos estabelecidos para a gama de possíveis e diferentes maneiras de se tornar homem nessa dupla correlação com o ambiente, o organismo humano manifesta uma imensa plasticidade em suas respostas às forças ambientais que atuam sobre ele. Isso é particularmente claro quando se observa a flexibilidade da constituição biológica do homem ao ser submetida a uma multiplicidade de determinações socioculturais. É um lugar comum etnológico dizer que as maneiras de se tornar e de ser humano são tão numerosas quanto as culturas humanas. A humanização é variável em sentido sociocultural. Em outras palavras, não existe natureza humana no sentido de um substrato biologicamente fixo que determine a variabilidade das formações socioculturais. Há somente a natureza humana, no sentido de constantes antropológicas (por exemplo, abertura para o mundo e plasticidade da estrutura dos instintos) que delimita e permite as formações socioculturais do homem. Mas a forma específica em que essa humanização se molda é determinada por essas formações socioculturais, sendo relativa às suas numerosas variações. Embora seja possível dizer que o homem tem uma natureza, é mais significativo dizer que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo.
Essa afirmação segundo a qual o homem se produz a si mesmo de modo algum implica uma espécie de visão prometeica do indivíduo solitário. A autoprodução do homem é sempre e necessariamente um empreendimento social. Os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de suas formações socioculturais e psicológicas. Nenhuma dessas formações pode ser entendida como produto da constituição biológica do homem, que fornece somente os limites externos da atividade produtiva humana. Assim como é impossível que o homem se desenvolva como homem no isolamento, igualmente é impossível que o homem isolado produza um ambiente humano. O ser humano solitário é um ser no nível animal (que, está claro, o homem partilha com outros animais). Logo que observamos fenômenos especificamente humanos entramos no reino do social. A humanidade específica do homem e sua sociabilidade estão inextrincavelmente entrelaçadas. O homo sapiens é sempre, e na mesma medida, homo socius. BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 68-73. [Adaptado].
O texto “A construção social do ser humano” tem como objetivo
- A)relatar uma sequência de fatos.
- B)defender um ponto de vista teórico.
- C)descrever a natureza de uma situação.
- D)instruir a realização de um procedimento.
- E)informar os detalhes de um acontecimento.