O romance é dividido em quatro partes – o preço, quitação, posse e resgate –, elementos que organizam a relação entre Aurélia e Fernando. Com base nesses elementos, a relação entre os personagens pode ser caracterizada sobretudo como:
um marido ao invés de se submeter a ele. O narrador do romance, no entanto, frequentemente a diminui, ao mesmo tempo que a engrandece, como se observa em:
A)A natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da mulher de talento que, se não atinge ao vigoroso raciocínio do homem, tem a preciosa ductilidade de prestar-se a todos os assuntos, por mais diversos que sejam.
B)Suspeito eu porém que a explicação dessa singularidade já ficou assinalada. Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem.
C)− Meu voto mais ardente, Aurélia, sonho dourado de minha vida, era conquistar uma posição brilhante para depô-la aos pés da única mulher que amei neste mundo.
D)Com uma existência calma e um amor feliz, Aurélia teria sido meiga esposa e mãe extremosa.
de cera do mostrador de um cabeleireiro da moda. [...] O Lemos, que andava sempre metido na roda dos rapazes, veio a saber do aparecimento da bisca da rua de Santa Teresa. Entendeu o árdego velhinho que, em sua qualidade de tio, cabia-lhe um certo direito de primazia sobre esse bem de família.
Seguindo os apelos da mãe, Aurélia procura conseguir um casamento. Nesse momento, como mostra o trecho, o narrador se vale de determinadas metáforas para descrever a personagem. Essas metáforas produzem o sentido de:
Durante um mês, Aurélia inebriou-se da suprema felicidade de viver amante e amada. [...] Seria difícil conhecer a quem mais adorava a gentil menina, e de quem mais vivia, se do homem que a visitava todos os dias ao cair da tarde, se do ideal que sua imaginação copiara daquele modelo.
Como Pigmalião ela tinha cinzelado uma estátua e, talvez, [...], se apaixonasse por sua criatura [...].
Pigmalião e Galateia, de Jean-Léon Gérôme, 1860. greciantiga.org O personagem mítico Pigmalião, decepcionado com o comportamento feminino, esculpe uma imagem de mulher e acaba se apaixonando por sua obra. De modo similar, Aurélia, já casada, manda pintar um retrato de Fernando, no qual destaca uma expressão honesta que deseja reconhecer no marido. Na construção da narrativa, essa imagem idealizada, cultivada desde que Aurélia conheceu Fernando, acaba por assumir a função de:
próprio. Não se perdoava a imprudência de apaixonar-se por uma moça pobre e quase órfã, imprudência a que pusera remate o pedido de casamento. O rompimento deste enlace irrefletido era para ele uma coisa irremediável, fatal; mas o seu procedimento o indignava. Havia nessa contradição da consciência de Seixas com a sua vontade uma anomalia psicológica, da qual não são raros os exemplos na sociedade atual. O falseamento de certos princípios da moral, dissimulado pela educação e conveniência sociais, vai criando esses aleijões de homens de bem.
A expressão “aleijões de homens de bem”, empregada pelo narrador, serve tanto para homens de hoje como de ontem. Com base no trecho, a expressão designa aqueles homens que, em relação à ideia de moral e bons costumes, têm a postura de:
apenas conhecemos o prólogo. Os dois atores ainda conservam a mesma posição em que os deixamos.
A cena transcrita acima retoma o momento em que Aurélia diz a Fernando que o comprou. Essa cena exemplifica uma ocorrência de metaficção que se manifesta da seguinte forma:
mirapininga, e a abriu. Ainda chegou a puxar a pasta de chamalote escarlate. Na aba superior, dentro de um florão branco, aparecia bordado em debuxo de ouro o seu monograma, F. R. S., entrelaçados. Esteve a olhar maquinalmente essas letras que se lhe afiguravam um enigma. Como na fábula antiga, a esfinge o estupidava. Que significação tinha isso depois do desenlace que momentos antes o havia arremessado à maior abjeção?
A esfinge é uma criatura mitológica presente em algumas culturas. Na tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles, uma esfinge exige que viajantes decifrem um enigma para que não sejam devorados. Recém-casado, Seixas se vê diante de um enigma, já que as atitudes de Aurélia apontavam para uma contradição entre os seguintes elementos:
à mistura da virtude com o vício. Torna o homem um ente híbrido. Nem bom, nem mau. Nem digno de ser amado, nem tão vil que se lhe evite o contágio. Compreendo o que deve sentir uma mulher... o que sentiu uma amiga minha, quando conheceu que amava um desses homens equívocos, produtos da sociedade moderna.
Alencar construiu Fernando com uma característica principal, subentendida na fala acima, de Aurélia. Trata-se da seguinte característica:
um já tinha percorrido, e confundiam-se. Aplaudiam reciprocamente ou censuravam.
No século XIX, o livro adquiriu no Brasil, ainda que para uma pequena parcela da população, um significado importante em termos de formação cultural. Várias passagens do romance indicam que Aurélia e Seixas são leitores e valorizam livros. No caso do trecho citado, o livro assume a seguinte representação metafórica para os personagens:
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