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ENEM2025Fase unicaQuestao 16PortuguêsLiteratura — poesiaMediaSímbolos Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua... Um símbolo descubro aqui, neste momento esta rocha, este mar... a minha vida e a tua. O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recua. Como compreendo bem da rocha o sentimento! São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua. Contemplo neste quadro a nossa triste vida; tu és dúbio mar que, na sua inconsciência, tem carinhos de amor e fúrias de demência! Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, sou rocha a emergir de um côncavo de areia, imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia. MACHADO, G. Poesia completa. Rio de Janeiro:
Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao
- A)rejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.
- B)expressar a dubiedade do olhar sobre o outro.
- C)representar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.
- D)associar a sua inconsciência a elementos da natureza.
- E)metaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”.
ENEM2025Fase unicaQuestao 28PortuguêsLiteratura — poesiaMediaPequenino morto Tange o sino, tange, numa voz de choro, Numa voz de choro... tão desconsolado... No caixão dourado, como em berço de ouro, Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro... Pequenino, acorda! Que caminho triste, e que viagem! Alas De ciprestes negros a gemer no vento; Tanta boca aberta de famintas valas A pedir que as fartem, a esperar que as encham... Pequenino, acorda! Recupera o alento, Foge da cobiça dessas fundas valas A pedir que as encham. CARVALHO, V. Poemas e canções. Rio de Janeiro: Saraiva, 1962 (fragmento). Nesse fragmento do poema, o sentimento de luto adquire contornos expressivos e é intensificado pela
- A)descrição da paisagem de um cemitério.
- B)recusa do eu lírico à irreversibilidade da morte.
- C)sonoridade dos versos produzida pela pontuação.
- D)religiosidade evocada como forma de fortalecimento.
- E)impressão de sonho na construção da estrutura poética.
ENEM2021Fase unicaQuestao 38PortuguêsLiteratura — poesiaDificilSe for possível, manda-me dizer: — É lua cheia. A casa está vazia — Manda-me dizer, e o paraíso Há de ficar mais perto, e mais recente Me há de parecer teu rosto incerto. Manda-me buscar se tens o dia Tão longo como a noite. Se é verdade Que sem mim só vês monotonia. E se te lembras do brilho das marés De alguns peixes rosados Numas águas E dos meus pés molhados, manda-me dizer: — É lua nova — E revestida de luz te volto a ver. HILST, H. Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Cia. das Letras, 2018. Falando ao outro, o eu lírico revela-se vocalizando um desejo que remete ao
- A)ceticismo quanto à possibilidade do reencontro.
- B)tédio provocado pela distância física do ser amado.
- C)sonho de autorrealização desenhado pela memória.
- D)julgamento implícito das atitudes de quem se afasta.
- E)questionamento sobre o significado do amor ausente.
ENEM2021Fase unicaQuestao 40PortuguêsLiteratura — poesiaDificilIntrodução a Alda Dizem que ninguém mais a ama. Dizem que foi uma boa pessoa. Sua filha de doze anos não a visita nunca e talvez raramente se lembre dela. Puseram-na numa cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos, de onde não pôde mais sair. Lá, todos gritam-lhe irritados, mal se aproxima, ou lhe batem, como se faz com sacos de areia para treinar os músculos. Sei que para todos ela já não é, e ninguém lhe daria uma maçã cheirosa, bem vermelha. Mas não é verdade que alguém não a possa mais amar. Eu amo-a. Amo-a quando a vejo por trás das grades de um palácio, onde se refugiou princesa, chegada pelos caminhos da dor. Quando fora do reino sente o mundo de mil lanças, e selvagem prepara- -se, posta no olhar. Amo-a quando criança brinca na areia sem medo. Uns pés descalços, uma mulher sem intenções. Cercada de mundo, às vezes sofrendo-o ainda. CANÇADO, M. L. O sofredor do ver. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. Ao descrever uma mulher internada em um hospital psiquiátrico, o narrador compõe um quadro que expressa sua percepção
- A)irônica quanto aos efeitos do abandono familiar.
- B)resignada em face dos métodos terapêuticos em vigor.
- C)alimentada pela imersão lírica no espaço da segregação.
- D)inspirada pelo universo pouco conhecido da mente humana.
- E)demarcada por uma linguagem alinhada à busca da lucidez.
ENEM2021Fase unicaQuestao 41PortuguêsLiteratura — poesiaDificilO pavão vermelho Ora, a alegria, este pavão vermelho, está morando em meu quintal agora. Vem pousar como um sol em meu joelho quando é estridente em meu quintal a aurora. Clarim de lacre, este pavão vermelho sobrepuja os pavões que estão lá fora. É uma festa de púrpura. E o assemelho a uma chama do lábaro da aurora. É o próprio doge a se mirar no espelho. E a cor vermelha chega a ser sonora neste pavão pomposo e de chavelho. Pavões lilases possuí outrora. Depois que amei este pavão vermelho, os meus outros pavões foram-se embora. COSTA, S. Poesia completa: Sosígenes Costa. Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 2001. Na construção do soneto, as cores representam um recurso poético que configura uma imagem com a qual o eu lírico
- A)revela a intenção de isolar-se em seu espaço.
- B)simboliza a beleza e o esplendor da natureza.
- C)experimenta a fusão de percepções sensoriais.
- D)metaforiza a conquista de sua plena realização.
- E)expressa uma visão de mundo mística e espiritualizada.
ENEM2020Fase unicaQuestao 18PortuguêsLiteratura — poesiaDificilRetrato de homem A paisagem estrita ao apuro do muro feito vértebra a vértebra e escuro. A geração dos pelos sobre a casca e os rostos em seus diques de sombra repostos. Os poços com seu lodo de ira e de tensão: entre cimento e fronte — um vão. As setas se atiram às margens de ninguém, ilesas a si mesmas retêm. Compassos de evasão entre falange e rua sondando a solitude nua. E na armadura de coisa salobra, um só segredo: a polpa toda é fruição de medo. ARAÚJO, L. C. Cantochão. Belo Horizonte: Imprensa Publicações — Governo do Estado No poema, a descrição lírica do objeto representado é orientada por um olhar que
- A)desvela sentimentos de vazio e angústia sob a aparente austeridade.
- B)expressa desilusão ante a possibilidade de superação do sofrimento.
- C)contrapõe a fragilidade emocional ao uso desmedido da força física.
- D)associa a incomunicabilidade emocional às determinações culturais.
- E)privilegia imagens relacionadas à exposição do dinamismo urbano.
ENEM2019Fase unicaQuestao 14PortuguêsLiteratura — poesiaMediaA viagem Que coisas devo levar nesta viagem em que partes? As cartas de navegação só servem a quem fica. Com que mapas desvendar um continente que falta? Estrangeira do teu corpo tão comum quantas línguas aprender para calar-me? Também quem fica procura um oriente. Também a quem fica cabe uma paisagem nova e a travessia insone do desconhecido e a alegria difícil da descoberta. O que levas do que fica, o que, do que levas, retiro? MARQUES, A. M. In: SANT’ANNA, A. (Org.). Rua Aribau. Porto Alegre: Tag, 2018. A viagem e a ausência remetem a um repertório poético tradicional. No poema, a voz lírica dialoga com essa tradição, repercutindo a
- A)saudade como experiência de apatia.
- B)presença da fragmentação da identidade.
- C)negação do desejo como expressão de culpa.
- D)persistência da memória na do passado.
- E)revelação de rumos projetada pela vivência da solidão.
ENEM2019Fase unicaQuestao 22PortuguêsLiteratura — poesiaDificilUma ouriça Se o de longe esboça lhe chegar perto, se fecha (convexo integral de esfera), se eriça (bélica e multiespinhenta): e, esfera e espinho, se ouriça à espera. Mas não passiva (como ouriço na loca); nem só defensiva (como se eriça o gato); sim agressiva (como jamais o ouriço), do agressivo capaz de bote, de salto (não do salto para trás, como o gato): daquele capaz de salto para o assalto. Se o de longe lhe chega em (de longe), de esfera aos espinhos, ela se desouriça. Reconverte: o metal hermético e armado na carne de antes (côncava e propícia), e as molas felinas (para o assalto), nas molas em espiral (para o abraço). MELO NETO, J. C. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Com apuro formal, o poema tece um conjunto semântico que metaforiza a atitude feminina de
- A)tenacidade transformada em brandura.
- B)obstinação traduzida em isolamento.
- C)inércia provocada pelo desejo platônico.
- D)irreverência cultivada de forma cautelosa.
- E)desconfiança consumada pela intolerância.
ENEM2019Fase unicaQuestao 33PortuguêsLiteratura — poesiaDificilInverno! inverno! inverno! Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal, descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente, para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão, desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o frio inverno da vida. Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem. POMPEIA, R. Canções sem metro. Campinas: Unicamp, 2013. Reconhecido pela linguagem impressionista, Raul Pompeia desenvolveu-a na prosa poética, em que se observa a
- A)imprecisão no sentido dos vocábulos.
- B)dramaticidade como elemento expressivo.
- C)subjetividade em oposição à verossimilhança.
- D)valorização da imagem com efeito persuasivo.
- E)plasticidade verbal vinculada à cadência melódica.
ENEM2019Fase unicaQuestao 39PortuguêsLiteratura — poesiaDificilque nelas Essa lua enlutada, esse desassossego A convulsão de dentro, ilharga Dentro da solidão, corpo morrendo Tudo isso te devo. E eram tão vastas As coisas planejadas, navios, Muralhas de marfim, palavras largas que, Consentimento sempre. E seria dezembro. Um cavalo de jade sob as águas Dupla transparência, fio suspenso Todas essas coisas na ponta dos teus dedos E tudo se desfez no pórtico do tempo Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo Também isso te devo. HILST, H. Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Cia. das Letras, 2018. No poema, o eu lírico faz um inventário de estados passados espelhados no presente. Nesse processo, aflora o
- A)cuidado em apagar da memória os restos do amor.
- B)amadurecimento revestido de ironia e desapego.
- C)mosaico de alegrias formado seletivamente.
- D)desejo reprimido convertido em delírio.
- E)arrependimento dos erros cometidos.
ENEM2018Fase unicaQuestao 10PortuguêsLiteratura — poesiaDificilQuebranto às vezes sou o policial que me suspeito me peço documentos e mesmo de posse deles me prendo e me dou porrada às vezes sou o porteiro não me deixando entrar em mim mesmo a não ser pela porta de serviço [...] às vezes faço questão de não me ver e entupido com a visão deles sinto-me a miséria concebida como um eterno começo fecho-me o cerco sendo o gesto que me nego a pinga que me bebo e me embebedo o dedo que me aponto e denuncio o ponto em que me entrego. às vezes!... CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza, 2007 (fragmento). Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a presença de elementos que traduzem experiências históricas de preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico
- A)incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.
- B)submete-se à discriminação fortalecimento.
- C)engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.
- D)sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento.
- E)acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade igualitária.
ENEM2018Fase unicaQuestao 15PortuguêsLiteratura — poesiaDificilDia 20/10 É preciso não beber mais. Não é preciso sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso fechar para balanço e reabrir. É preciso não dar de comer aos urubus. Nem esperanças aos urubus. É preciso sacudir a poeira. É preciso poder beber sem se oferecer em holocausto. É preciso. É preciso não morrer por enquanto. É preciso sobreviver para verificar. Não pensar mais na solidão de Rogério, e deixá-lo. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública. TORQUATO NETO. In: MENDONÇA, J. (Org.) Poesia (im)popular brasileira. São Bernardo do Campo: Lamparina Luminosa, 2012. O processo de construção do texto formata uma aspectos sociais mensagem por ele dimensionada, uma vez que
- A)configura o estreitamento da linguagem poética.
- B)reflete as lacunas da lucidez em desconstrução.
- C)projeta a persistência das emoções reprimidas.
- D)repercute a consciência da agonia antecipada.
- E)revela a fragmentação das relações humanas.