De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia 2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem 3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, 4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais 5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, 6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, 7 mais rotunda e mais cheia de arestas. 8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, 9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso 10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que 11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de 12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou 13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever 14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais 15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias 16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, 17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou 18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times 19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus 20 e o mundo. 21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca 22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até 23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços 24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está 25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na 26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus 27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its 28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico 29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso. 30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais 31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai 32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados 33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam 34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por 35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais 36 ainda as adultas) precisa conviver. 37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco 38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas 39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, 40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de 41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta 42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação 43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, 44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma 45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
No que diz respeito ao gênero bilhete, a autora dessa crônica
A)ressalta a formalidade na comunicação com as pessoas de sua convivência.
B)critica a ansiedade causada pela velocidade da comunicação.
C)expressa a obrigatoriedade de concisão nas anotações.
D)questiona a prática da escrita de próprio punho.
De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia 2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem 3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, 4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais 5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, 6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, 7 mais rotunda e mais cheia de arestas. 8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, 9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso 10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que 11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de 12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou 13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever 14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais 15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias 16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, 17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou 18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times 19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus 20 e o mundo. 21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca 22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até 23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços 24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está 25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na 26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus 27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its 28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico 29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso. 30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais 31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai 32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados 33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam 34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por 35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais 36 ainda as adultas) precisa conviver. 37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco 38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas 39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, 40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de 41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta 42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação 43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, 44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma 45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
O elemento que caracteriza esse texto como uma crônica é a
A)defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo.
B)exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais.
C)abordagem de fatos do contexto pessoal em uma perspectiva reflexiva.
D)utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor.
E)apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo.
De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia 2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem 3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, 4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais 5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, 6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, 7 mais rotunda e mais cheia de arestas. 8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, 9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso 10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que 11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de 12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou 13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever 14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais 15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias 16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, 17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou 18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times 19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus 20 e o mundo. 21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca 22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até 23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços 24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está 25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na 26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus 27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its 28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico 29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso. 30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais 31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai 32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados 33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam 34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por 35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais 36 ainda as adultas) precisa conviver. 37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco 38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas 39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, 40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de 41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta 42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação 43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, 44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma 45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
Nesse texto, o que caracteriza a escrita “de próprio punho” é a letra manuscrita, enquanto a escrita digital é ilustrada pelo(a)
A)utilização de tecnologias diversificadas.
B)desenvolvimento de novos recursos de escrita.
C)possibilidade de interações mediadas por telas.
D)diversidade de fontes tipográficas que estão disponíveis.
E)delimitação dos espaços onde a produção textual ocorre.
ENEM2025Fase unicaQuestao 9PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Facil
De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia 2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem 3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, 4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais 5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, 6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, 7 mais rotunda e mais cheia de arestas. 8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, 9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso 10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que 11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de 12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou 13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever 14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais 15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias 16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, 17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou 18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times 19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus 20 e o mundo. 21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca 22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até 23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços 24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está 25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na 26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus 27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its 28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico 29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso. 30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais 31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai 32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados 33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam 34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por 35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais 36 ainda as adultas) precisa conviver. 37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco 38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas 39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, 40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de 41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta 42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação 43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, 44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma 45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
A autora conclui que as novas tecnologias de escrita
De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia 2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem 3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, 4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais 5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, 6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, 7 mais rotunda e mais cheia de arestas. 8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, 9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso 10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que 11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de 12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou 13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever 14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais 15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias 16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, 17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou 18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times 19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus 20 e o mundo. 21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca 22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até 23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços 24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está 25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na 26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus 27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its 28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico 29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso. 30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais 31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai 32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados 33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam 34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por 35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais 36 ainda as adultas) precisa conviver. 37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco 38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas 39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, 40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de 41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta 42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação 43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, 44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma 45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
O recurso linguístico usado para marcar a síntese da opinião da autora sobre a temática desenvolvida foi o(a)
A)emprego da primeira pessoa em “Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão ‘de próprio punho’”. (l. 1)
B)utilização de locução adverbial em “Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia”. (l. 3-4)
C)uso de pronome possessivo em “Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância”. (l. 5-6)
D)adoção de termo autorreflexivo em “No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma”. (l. 30)
E)substituição da expressão “Do punho ao pixel” (l. 44) pela expressão “o punho e o pixel”. (l. 45)
— Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. [...] — Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la. — Ah! é casada? perguntou Cirino. — Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para São Paulo um homem de mãocheia, que talvez o sr. conheça... o Manecão Doca... — Não, respondeu Cirino abanando a cabeça. — Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada... olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento... isto é, dei-lhe uns toques... porque os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha? — Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever. TAUNAY, A. d’E. Inocência. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
Nesse trecho, ao se referir à sua filha, o pai de Inocência reproduz os ideais românticos, presentes na
A)valorização do ambiente rural na formação moral da mulher.
B)figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino.
C)equivalência de origem social para a harmonia do casal.
D)importância do dote como condição para o casamento.
O Ministério do Esporte no Brasil lançou o programa Maré Inclusiva, em 2024, ano dos Jogos Paralímpicos de Paris. Esse programa visa ampliar as oportunidades para pessoas com deficiência que desejam praticar o surf. O parasurf é a prática do surf adaptada para permitir que pessoas com deficiência pratiquem o esporte em todas as suas categorias, modalidades e manifestações. Para a Secretaria Nacional do Paradesporto, a iniciativa é mais do que um programa de esporte, é uma iniciativa que busca transformar vidas e promover a inclusão por meio do parasurf, criando um legado de igualdade e respeito. Disponível em: www.gov.br/esporte. Acesso em: 6 set. 2024 (adaptado). De acordo com esse texto, o programa voltado ao estímulo da prática do parasurf evidencia a
A)adesão de diferentes países a programas inclusivos.
B)preocupação política em atender a demandas paralímpicas.
C)importância de uma política pública esportiva para a inclusão.
D)eficiência das iniciativas de inclusão em megaeventos esportivos.
E)escassez de investimento em práticas corporais de aventura na natureza.
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. § 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. § 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. BRASIL. Lei n. 10 639/2003. Disponível em: www.gov.br/planalto. Acesso em: 5 maio 2024. O emprego da norma-padrão é justificado nesse texto
Símbolos Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua... Um símbolo descubro aqui, neste momento esta rocha, este mar... a minha vida e a tua. O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recua. Como compreendo bem da rocha o sentimento! São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua. Contemplo neste quadro a nossa triste vida; tu és dúbio mar que, na sua inconsciência, tem carinhos de amor e fúrias de demência! Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, sou rocha a emergir de um côncavo de areia, imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia. MACHADO, G. Poesia completa. Rio de Janeiro:
Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao
A)rejeitar as emoções de “amor” e “mágoa”.
B)expressar a dubiedade do olhar sobre o outro.
C)representar o “eu” e o “tu” como sujeitos volúveis.
D)associar a sua inconsciência a elementos da natureza.
E)metaforizar o conflito amoroso nas imagens de “mar” e “rocha”.
Antes do inverno chegar. Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa. Ela fazia ambrosia, bolo de fubá e pedacinhos de queijo. Antes do inverno, ela plantava flores novas e diferentes para nos esperar nas próximas férias de verão. Ela tinha o jeito de menina. Menina sapeca, correndo na grama seca do cerrado. O mesmo jeito de antes. Antes do marido (e mesmo com o marido). Antes do cansaço dos anos. Antes da dureza do trato com a terra. Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore. Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta. Mas ela é e sempre será minha avó. PERSON, C. R. Borboletas no estômago: porque às vezes o título precisa ser adolescente e clichê, já que a vida exige sermos tão adultos. São Paulo: Ed. das Autoras, 2021. A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução “antes de”. Esse termo colabora para a progressão temática na medida em que
A)relaciona eventos ocorridos simultaneamente.
B)estabelece uma comparação entre as lembranças.
C)ressalta fatos que ressignificam o momento presente.
D)sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas.
E)apresenta uma explicação para as memórias resgatadas.
Com 20 anos de experiência no futebol de alto rendimento, Marina, ex-jogadora da seleção brasileira de futebol, salienta que, por trás do espetáculo apresentado nas mídias, com mensagens de motivação e superação, o esporte não é tão inclusivo assim. “É esta análise que devemos fazer: aqueles atletas que estão ali estão trazendo uma alta performance a partir dos seus limites”, explica. Para a profissional, é preciso analisar com cautela “a ideia romântica que a mídia passa para os telespectadores”. A realidade é muito mais dura do que as imagens espetaculosas que principalmente a televisão busca transmitir para a audiência. “Por trás existe um ser humano, a gente não pode nunca esquecer isso. Aquela pessoa treinou insistentemente para estar ali, durante meses, semanas e temporadas. Duas vezes ao dia, de duas a quatro horas”, pondera Marina. Atualmente, as crianças e os jovens vislumbram o sucesso profissional e a boa-vida financeira de poucos atletas que se destacam e estampam os meios de comunicação. Tudo parece ser muito mais fácil do que realmente é quando apenas as conquistas são mostradas. ROSOLEN, N. Disponível em: www.uninter.com. Acesso em: 10 maio 2024 (adaptado). Nesse texto, a visão crítica de uma ex-atleta de futebol revela que
A)os meios de comunicação invisibilizam as dificuldades presentes no esporte.
B)o treinamento atlético de alto nível é desestimulante para os indivíduos.
C)o trabalho contínuo é desvalorizado no contexto esportivo profissional.
D)as ações de incentivo financeiro a jovens atletas são precárias.
E)as publicações da mídia esportiva rotulam atletas iniciantes.
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