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UFSC2026Prova 1Questao 1PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Ana Maria Gonçalves faz história e é eleita a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras
Por André Bernardo (10/07/2025 – Estadão)
01 Oitenta anos. Esse foi o tempo que a Academia Brasileira de Letras levou, desde a sua
02 fundação, em 20 de julho de 1897, para eleger a primeira mulher. A escolhida foi a jornalista e escritora
03 cearense Rachel de Queiroz no dia 4 de agosto de 1977.
04 Quarenta e oito anos depois, em 10 de julho de 2025, a ABL elegeu a primeira mulher negra: a
05 escritora, dramaturga e roteirista mineira Ana Maria Gonçalves. A autora de Ao lado e à margem do
06 que sentes por mim (Independente, 2002) e Um defeito de cor (Record, 2006) disputou a vaga com
07 outros 13 candidatos: dez homens e três mulheres. Ela recebeu 30 dos 31 votos de acadêmicos.
08 “Além de ser um motivo para comemorar, é também um motivo para nós começarmos a pensar
09 o que significam esses primeiros, esses únicos. Numa sociedade brasileira onde as mulheres negras
10 são a maioria do estrato social, por que só agora?”, refletiu Ana Maria.
11 O que representa para a literatura brasileira ter uma escritora negra na ABL?
12 “Sempre digo que, para uma escritora negra, reparação é ser reconhecida e exaltada em vida.
13 Logo, ter uma de nós ocupando uma cadeira da ABL é de extrema importância, pois reforça a
14 necessidade de olhar para a produção intelectual e o resgate da memória de quem sempre esteve na
15 base desse País”, afirma a poeta e compositora Mel Duarte.
16 O que representa para a literatura brasileira ter uma escritora negra na ABL? “Prefiro alterar a
17 pergunta: o que representa para a ABL a eleição de uma escritora negra?”, responde Vanessa Ribeiro
18 Teixeira, doutora em Letras pela UFRJ.
19 “No momento presente, reduz-se a distância entre a produção literária do nosso tempo e a
20 casa institucional que deveria contemplá-la. Numa perspectiva histórica, reconhece-se, finalmente, o
21 lugar de destaque devido à escrita de mulheres negras, herdeiras de Maria Firmina dos Reis,
22 considerada a primeira romancista negra não só do Brasil, mas da América Latina”, afirma Teixeira,
23 referindo-se à autora do romance Úrsula (1853).
24 Conceição Evaristo também já concorreu
25 Não foi a primeira vez que uma escritora negra concorreu a uma vaga na ABL. No dia 30 de
26 agosto de 2018, a escritora mineira Conceição Evaristo tentou se eleger, mas não conseguiu. Evaristo
27 obteve um único voto.
28 De nada adiantaram, entre outras iniciativas populares, a campanha no antigo Twitter usando a
29 hashtag #ConceiçãoEvaristonaABL e uma petição online com 40 mil assinaturas.
30 “Minha personalidade é rancorosa demais para perdoar o que fizeram: é como se tivessem
31 rejeitado a minha avó. Mesmo depois da eleição do Gil, meu coração não se acalmou”, admite a
32 jornalista e escritora Ana Paula Lisboa.
33 ‘Não é cota’
34 “A eleição de Ana Maria Gonçalves não é cota, muito menos favor. É um lugar digno de uma
35 escritora que tem um dos livros mais importantes da literatura brasileira”, prossegue a autora. “A ABL
36 precisa mais da Ana Maria Gonçalves do que a Ana Maria Gonçalves precisa da ABL.”
37 “Setores majoritários da ABL podem tentar se manter alheios aos grandes debates que clamam
38 por transformações sociais, mas seria de bom alvitre nos responder: por que Ana Maria Gonçalves,
39 provavelmente, foi convidada, e a candidatura de Conceição Evaristo foi rechaçada? Por que Gilberto
40 Gil pode ser membro da ABL e Martinho da Vila, não? Merecemos respostas”, pondera a escritora
41 Cidinha da Silva.
42 A trajetória de Ana Maria Gonçalves
43 “Não queremos que a eleição da Ana Maria Gonçalves seja um ‘cala-boca racializado’.
44 Queremos mais escritoras negras naquele espaço de notoriedade positiva e em todos os outros, não
45 apenas uma”, enfatiza Cidinha da Silva. “Representatividade é importante, porque, quando vejo uma
46 pessoa igual a mim em lugares de poder, de comando, de status sociopolítico e cultural reconhecido e
47 valorizado, penso que eu e pessoas parecidas comigo também podem ocupar e desfrutar desses
48 espaços”, prossegue.
49 “A trajetória literária e social de Ana Maria Gonçalves como mulher negra e escritora entrelaça
50 dois marcadores sociais que, historicamente, se converteram em tabus para a ABL: o gênero e a raça,
51 evitados, tanto quanto possível, sob a justificativa de que a instituição seria um espaço neutro e
52 refratário a ditos ‘proselitismos’”, afirma Michele Asmar Fanini, doutora em Sociologia pela USP e
53 autora da tese Fardos e fardões – Mulheres na Academia Brasileira de Letras.
54 A jornalista, escritora e roteirista Eliana Alves Cruz concorda. “Ter uma autora negra ali não é
55 nada. Meu medo é que a instituição passe o ferrolho para outras autoras negras depois que a Ana
56 Maria Gonçalves entrar. Não podemos esquecer que o B de ABL é de Brasil”, avisa a autora de Água
57 de barrela (Malê, 2018), O crime do Cais do Valongo (Malê, 2018) e Solitária (Companhia das Letras,
58 2022).
59 “Quanto mais plural, melhor”, acrescenta Eliana Alves Cruz. “É espantoso que, em 2025, ainda
60 tenhamos uma instituição tão majoritariamente branca e masculina. Falta muita gente ali. Por que não
61 preencher aquelas cadeiras com outras formas de pensar, de narrar, de falar? Seria bonito se a gente
62 tivesse o Brasil representado na ABL”, finaliza.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/ana-maria-goncalves-faz-historia-e-e-eleita-a-primeira-mulher-negra-na-academia-brasileira-de-
letras. [Adaptado].
Com base no texto 1, é correto afirmar que:
01)a ABL levou 48 anos, desde a sua fundação, para eleger a primeira mulher negra.
02)Ana Maria Gonçalves problematiza o significado do pioneirismo e o peso da representatividade negra.
04)em “A eleição de Ana Maria Gonçalves não é cota, muito menos favor” (linha 34), defende-se a necessidade de que seja pensado um sistema de cotas para a ABL.
08)o texto tem caráter expositivo-argumentativo e expressa posicionamentos por meio dos recortes de fala apresentados.
16)Mel Duarte (linhas 11-15) sente-se representada pela condição autoral e racial de Ana Maria Gonçalves.
32)a socióloga Michele Fanini afirma que a Academia Brasileira de Letras é um espaço neutro no debate sobre raça e gênero.
64)a expressão “passe o ferrolho” (linha 55) significa ‘a ABL se fechar para escolhas futuras de outras autoras negras’.
UFSC2026Prova 1Questao 4PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Silêncio
01 Língua das coisas 15 Toda fala nasce com a cicatriz do silêncio,
16 que foi quebrado
02 Mas também: língua de se falar
03 com as coisas 17 Não há palavra que não seja marcada pelo silêncio
04 e com as próprias palavras 18 como camisas que secaram
19 presas ao varal
05 O nome das coisas
06 quando não falamos delas 20 Por outro lado, frequentemente o silêncio
21 vem manchado por uma palavra
07 Único modo que têm os mortos 22 como um espelho sujo
08 de cantar
23 A forma mais próxima do silêncio é o círculo: 09 O que há entre uma xícara e outra xícara
24 forma geométrica da espera
10 entre uma pedra e uma rosa
11 entre Vênus e uma cadeira 25 O rastro que deixou
26 o animal que não passou
12 O modo como soa
13 uma palavra 27 É este o meu nome
14 riscada 28 quando não me chamas
MARQUES, Ana Martins. Risque esta palavra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. p. 61-62.
Com base no texto 3 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)nos dois últimos versos, a autora utiliza a ordem direta na construção da frase, de modo a evitar a ambiguidade.
02)o eu lírico faz uma comparação entre as marcas do silêncio sobre as palavras e as marcas deixadas em camisas presas no varal.
04)a expressão “Por outro lado” (verso 20) é utilizada para contrastar duas afirmações sobre a relação entre o silêncio e a palavra.
08)em “Toda fala nasce com a cicatriz do silêncio, / que foi quebrado” (versos 15 e 16), a vírgula marca a introdução de uma oração restritiva sobre o silêncio e o que a fala causou.
16)o poema traz uma série de definições de “silêncio”, como “língua das coisas” (verso 01) e “O nome das coisas / quando não falamos delas” (versos 05 e 06).
UFSC2026Prova 1Questao 5PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Laerte Poeminho do Contra
Mario Quintana
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
QUINTANA, Mario. Poeminho do Contra. In: Poemas
para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Disponível em: www.laerte.art.br.
Com base nos textos 4 e 5 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)o texto 4 estabelece uma relação de intertextualidade com o texto 5.
02)ambos exploram o tema da liberdade e resiliência diante dos obstáculos da vida.
04)o terceiro verso do poema estabelece um jogo de palavras que permite um duplo sentido entre o grau aumentativo de “pássaro” e o verbo “passar” conjugado no futuro do presente do modo indicativo.
08)a oposição entre “passarão” e “passarinho” (textos 4 e 5) aponta para o fato de os problemas referentes a “Eles” serem grandiosos; e os referentes ao eu lírico, pequenos.
16)o texto 5 mantém uma relação de intratextualidade com o texto 4.
UFSC2026Prova 1Questao 10PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Disponível em: https://www.instagram.com/hqturmab.
Com base no texto 11 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)o humor da tira está no fato de a estudante seguir o conselho ao mesmo tempo em que o questiona.
02)o uso do “por quê” separado é justificado por marcar um questionamento; e o acento, pela tonicidade da palavra “que”.
04)a forma verbal no imperativo está sendo empregada no singular para direcionar o conselho à estudante.
08)o uso de uma construção condicional no primeiro quadro reforça a carga impositiva do enunciado no segundo quadro.
16)a aproximação do foco na menina do primeiro para o segundo e o terceiro quadros marca seu protagonismo crescente na história.
32)a representação imagética do enunciador está explícita no quadro 1.
UFSC2026Prova 1Questao 11PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
O personagem [O homem amarelo, 1915] foi
representado por Anita meio desajeitado na tela,
como se estivesse mal acomodado em um assento
que parece ser uma cadeira. No seu espaço limitado,
ele tem as duas mãos eliminadas pelo
enquadramento. Seu corpo está inclinado para a sua
direita, enquanto a cabeça reclina-se levemente para
a esquerda. Seus braços mostram-se arqueados. A
postura de seu corpo deixa à vista sua tensão. Ele se
mostra oprimido.
A ansiedade do homem pode ser sentida através
de sua expressão tensa e de seus olhos que
observam acima do ombro direito. Seu rosto, voltado
para a direita, deixa à vista apenas uma pequenina
parte da orelha do mesmo lado.
As vestes do homem amarelo também revelam a
sua apreensão. Seu paletó está desalinhado, com a
lapela direita quase encostando em seu rosto. A
gravata faz uma ligeira curva para a direita, sobre
sua camisa branca manchada que indica estar suja.
Disponível em: https://arteeartistas.com.br/o-homem-amarelo-anita-malfatti. Disponível em: https://marcaspelomundo.com.br/anunciantes/vmlyr-e- [Adaptado].
galeria-viva-lancam-a-plataforma-pocket-gallery.
Com base nos textos 12 e 13 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)o texto 12 expõe a obra O homem amarelo, descrevendo-a; já o texto 13 contém opiniões valorativas sobre a circulação do quadro.
02)os textos 12 e 13 são exemplares de gêneros textuais/discursivos diferentes, porém apresentam a mesma temática e os mesmos propósitos.
04)o efeito de humor do texto 13 está na transposição de uma referência histórica do Modernismo para uma conversa em rede social.
08)no texto 13, o pronome (D)“isso” tem referência anafórica, retomando a imagem do quadro.
16)o uso de emojis por Anita Malfatti se deve à inexistência de palavras para exprimir o mesmo conteúdo.
32)os emojis correspondem a uma língua, pois têm gramática e, como em qualquer língua natural, podem ser combinados de forma infinita e estável para gerar diferentes significados.
UFSC2025Prova 1Questao 1PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Com base no texto 1, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)o texto aponta a trilha profissional percorrida por Tom Zé ao modo dos demais precursores do Tropicalismo.
02)a temática do texto é a apresentação crítica de uma biografia de Tom Zé.
04)ao longo da carreira, Tom Zé desviou-se das ideias do Tropicalismo, indo muito além da música ao utilizar instrumentos de forma inconvencional.
08)o texto faz uma crítica implícita aos membros do Tropicalismo, que de algum modo se renderam aos ditames do mercado fonográfico brasileiro.
16)Tom Zé não se identifica com o universo dos oprimidos em busca de libertação, mas realizou o espetáculo Bumba Meu Boi, que enfrentava essa temática.
32)“o custo (alto)” (linha 03) refere-se ao valor financeiro que o artista precisou investir para lançar discos ao longo da carreira.
UFSC2024Prova 1Questao 1PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
**Texto 1 — O mundo é bárbaro (e o que nós temos a ver com isso)** — Luis Fernando Verissimo
01 Entreouvida na rua: “O que isso tem a ver com o meu café com leite?” Não sei se é uma
02 frase feita comum que só eu não conhecia ou se estava sendo inventada na hora, mas gostei.
03 Tudo, no fim, se resume no que tem e não tem a ver com o nosso café com leite, no que afeta
04 ou não afeta diretamente nossas vidas e nossos hábitos. É uma questão que envolve mais do
05 que a vizinhança próxima. Outro dia ficamos sabendo que o Stephen Hawking voltou atrás na
06 sua teoria sobre os buracos negros, aqueles furos no universo em que a matéria desaparece.
07 Nem eu nem você entendíamos a teoria, e agora somos obrigados a rever nossa ignorância: os
08 buracos negros não eram nada daquilo que a gente não sabia que eram, são outra coisa que a
09 gente nunca vai entender. Nosso consolo é que nada disto tem a ver com nosso café com leite.
10 Os buracos negros e o nosso café com leite são, mesmo, extremos opostos, a extrema
11 angústia do desconhecido e o extremo conforto do familiar. Não cabem na mesma mesa ou no
12 mesmo cérebro.
13 Mas da mesma forma que estes extremos não estão tão longe assim – basta o sol
14 inventar de implodir e iremos todos juntos para o buraco, nós, nosso café com leite, nosso pão
15 com manteiga, nosso santinho da sorte e aquele pulôver favorito – coisas da vizinhança
16 próxima que parecem não ter nada a ver com nossas vidas têm muito. Você lê essas histórias
17 de fortunas minguando entre os poucos bolsos de sempre, indo para paraísos fiscais e contas
18 ofishór e voltando disfarçadas, o milagre de dinheiro estéril gerando mais dinheiro estéril, a
19 grande e interminável farra do capital no Brasil, e é como se lesse sobre os buracos negros,
20 algo que não lhe diz respeito, que se passa longe do seu café com leite. E no entanto a moral
21 desse bordel é a moral dominante no país, agora, incrivelmente, mais do que nunca. É a que
22 determina nossa expectativa de vida. Seus apologistas dizem que não há nada de ilegal no
23 turismo sexual que o capital financeiro faz no Brasil para reproduzir a si mesmo, como se o
24 escândalo não fosse justamente sua legalidade. Também alegam que não há alternativa viável
25 à nossa dependência do capital amoral. Era o que o Stephen Hawking dizia da sua teoria para
26 os buracos negros, antes de mudar de ideia. Mas aparentemente as leis da física são mais
27 flexíveis do que a ortodoxia do bordel.
(VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 9-10.)
Com base no texto 1 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)o trecho “no que afeta ou não afeta diretamente nossas vidas e nossos hábitos” (linhas 03-04) explica a expressão que dá mote ao texto 1.
02)em “são, mesmo, extremos opostos, a extrema angústia do desconhecido e o extremo conforto do familiar” (linhas 10-11), os termos em destaque são advérbios intensificadores dos termos a que se referem.
04)“Entreouvida” (linha 01) é um neologismo formado pela junção de dois verbos.
08)em “Não sei se é uma frase feita” (linhas 01-02), a expressão sublinhada equivale a “clichê”.
16)o trecho “aqueles furos no universo em que a matéria desaparece” (linha 06) é aposto de “buracos negros”.
32)em “coisas da vizinhança próxima que parecem não ter nada a ver com nossas vidas têm muito” (linhas 15-16), o verbo sublinhado está flexionado no plural para concordar com o sujeito “nossas vidas”.
UFSC2024Prova 1Questao 2PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
**Texto 1 — O mundo é bárbaro (e o que nós temos a ver com isso)** — Luis Fernando Verissimo
01 Entreouvida na rua: “O que isso tem a ver com o meu café com leite?” Não sei se é uma
02 frase feita comum que só eu não conhecia ou se estava sendo inventada na hora, mas gostei.
03 Tudo, no fim, se resume no que tem e não tem a ver com o nosso café com leite, no que afeta
04 ou não afeta diretamente nossas vidas e nossos hábitos. É uma questão que envolve mais do
05 que a vizinhança próxima. Outro dia ficamos sabendo que o Stephen Hawking voltou atrás na
06 sua teoria sobre os buracos negros, aqueles furos no universo em que a matéria desaparece.
07 Nem eu nem você entendíamos a teoria, e agora somos obrigados a rever nossa ignorância: os
08 buracos negros não eram nada daquilo que a gente não sabia que eram, são outra coisa que a
09 gente nunca vai entender. Nosso consolo é que nada disto tem a ver com nosso café com leite.
10 Os buracos negros e o nosso café com leite são, mesmo, extremos opostos, a extrema
11 angústia do desconhecido e o extremo conforto do familiar. Não cabem na mesma mesa ou no
12 mesmo cérebro.
13 Mas da mesma forma que estes extremos não estão tão longe assim – basta o sol
14 inventar de implodir e iremos todos juntos para o buraco, nós, nosso café com leite, nosso pão
15 com manteiga, nosso santinho da sorte e aquele pulôver favorito – coisas da vizinhança
16 próxima que parecem não ter nada a ver com nossas vidas têm muito. Você lê essas histórias
17 de fortunas minguando entre os poucos bolsos de sempre, indo para paraísos fiscais e contas
18 ofishór e voltando disfarçadas, o milagre de dinheiro estéril gerando mais dinheiro estéril, a
19 grande e interminável farra do capital no Brasil, e é como se lesse sobre os buracos negros,
20 algo que não lhe diz respeito, que se passa longe do seu café com leite. E no entanto a moral
21 desse bordel é a moral dominante no país, agora, incrivelmente, mais do que nunca. É a que
22 determina nossa expectativa de vida. Seus apologistas dizem que não há nada de ilegal no
23 turismo sexual que o capital financeiro faz no Brasil para reproduzir a si mesmo, como se o
24 escândalo não fosse justamente sua legalidade. Também alegam que não há alternativa viável
25 à nossa dependência do capital amoral. Era o que o Stephen Hawking dizia da sua teoria para
26 os buracos negros, antes de mudar de ideia. Mas aparentemente as leis da física são mais
27 flexíveis do que a ortodoxia do bordel.
(VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 9-10.)
Com base no texto 1 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)a tese do texto é a crítica à prática do turismo sexual no Brasil.
02)em “Mas da mesma forma que estes extremos não estão tão longe assim” (linha 13), a expressão sublinhada está no plural para retomar “Os buracos negros” (linha 10).
04)a retomada por Stephen Hawking de leis da física evidencia que o conhecimento científico passa por revisão.
08)“moral” (linha 20) e “amoral” (linha 25) são adjetivos formados pelo acréscimo de sufixo ‘al’, à semelhança das palavras “ilegal” (linha 22) e “sexual” (linha 23).
16)o texto 1 estabelece uma relação de antítese entre “buracos negros” e “café com leite”.
32)em “contas ofishór” (linhas 17-18), o termo sublinhado é o registro de um estrangeirismo grafado conforme sua pronúncia em língua portuguesa.
UFSC2024Prova 1Questao 3PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
**Texto 1 — O mundo é bárbaro (e o que nós temos a ver com isso)** — Luis Fernando Verissimo
01 Entreouvida na rua: “O que isso tem a ver com o meu café com leite?” Não sei se é uma
02 frase feita comum que só eu não conhecia ou se estava sendo inventada na hora, mas gostei.
03 Tudo, no fim, se resume no que tem e não tem a ver com o nosso café com leite, no que afeta
04 ou não afeta diretamente nossas vidas e nossos hábitos. É uma questão que envolve mais do
05 que a vizinhança próxima. Outro dia ficamos sabendo que o Stephen Hawking voltou atrás na
06 sua teoria sobre os buracos negros, aqueles furos no universo em que a matéria desaparece.
07 Nem eu nem você entendíamos a teoria, e agora somos obrigados a rever nossa ignorância: os
08 buracos negros não eram nada daquilo que a gente não sabia que eram, são outra coisa que a
09 gente nunca vai entender. Nosso consolo é que nada disto tem a ver com nosso café com leite.
10 Os buracos negros e o nosso café com leite são, mesmo, extremos opostos, a extrema
11 angústia do desconhecido e o extremo conforto do familiar. Não cabem na mesma mesa ou no
12 mesmo cérebro.
13 Mas da mesma forma que estes extremos não estão tão longe assim – basta o sol
14 inventar de implodir e iremos todos juntos para o buraco, nós, nosso café com leite, nosso pão
15 com manteiga, nosso santinho da sorte e aquele pulôver favorito – coisas da vizinhança
16 próxima que parecem não ter nada a ver com nossas vidas têm muito. Você lê essas histórias
17 de fortunas minguando entre os poucos bolsos de sempre, indo para paraísos fiscais e contas
18 ofishór e voltando disfarçadas, o milagre de dinheiro estéril gerando mais dinheiro estéril, a
19 grande e interminável farra do capital no Brasil, e é como se lesse sobre os buracos negros,
20 algo que não lhe diz respeito, que se passa longe do seu café com leite. E no entanto a moral
21 desse bordel é a moral dominante no país, agora, incrivelmente, mais do que nunca. É a que
22 determina nossa expectativa de vida. Seus apologistas dizem que não há nada de ilegal no
23 turismo sexual que o capital financeiro faz no Brasil para reproduzir a si mesmo, como se o
24 escândalo não fosse justamente sua legalidade. Também alegam que não há alternativa viável
25 à nossa dependência do capital amoral. Era o que o Stephen Hawking dizia da sua teoria para
26 os buracos negros, antes de mudar de ideia. Mas aparentemente as leis da física são mais
27 flexíveis do que a ortodoxia do bordel.
(VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 9-10.)
**Texto 2 — Malvados (André Dahmer)** [tirinha — ver imagem]
(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/hq-nao-muda-o-mundo-mas-da-caminhos-diz-andre-dahmer-sobre-mostra-em-sp.shtml.)
Com base nos textos 1 e 2 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)o texto 1 vincula a palavra “bárbaro” ao sentido de barbárie, já o texto 2 explora a ambiguidade do termo, da qual se depreende seu efeito de humor.
02)“Que absurdo!” e “Que bárbaro!”, no texto 2, são interjeições que expressam surpresa e admiração, respectivamente.
04)no segundo quadro do texto 2, o termo “o que” exerce a função de predicativo e tem referência indeterminada.
08)no terceiro quadro do texto 2, a frase “Que bárbaro!” expressa a empolgação da personagem em relação a um novo conceito de verdade.
16)no trecho “Muito mais bárbaro do que você imagina”, no texto 2, o adjetivo “bárbaro” está flexionado, comparando a realidade dada na tirinha com o que se supõe ser imaginado pelo interlocutor.
UFSC2024Prova 1Questao 7PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
**Texto 7 — Charge de Edu** [charge — ver imagem]
(Disponível em: www.jornalistaslivres.org.)
Com base no texto 7 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)a remoção das charges sobre censura e sua justificativa evidenciam que uma exposição sobre esse tema é desnecessária por não haver censura.
02)o emprego da forma no gerúndio indica que o evento descrito ocorre simultaneamente ao momento da fala.
04)as diferentes formas “Por que” e “Porque” indicam uma relação de causa e consequência.
08)a ironia na resposta à pergunta é reforçada pelos elementos do texto não verbal.
16)a preposição “sobre” relaciona os termos “as charges” e “censura” com ideia de lugar.
32)o emprego da forma verbal “estão” indica que a censura é um ato para além do sujeito que executa a ação de retirar o cartaz.
UFSC2024Prova 1Questao 8PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
**Texto 8 — O ano em que meus pais saíram de férias** (roteiro)
01 PASSAGEM DE TEMPO.
02 O JUIZ apita. O jogo começa.
03 Em poucas jogadas, Mauro percebe que o time dos italianos está massacrando o time da casa.
04 Mas o goleiro Edgar defende tudo. De soco, de mão trocada, com os pés, com a cabeça...
05 A torcida está apreensiva. Mauro, maravilhado.
06 MAURO (V.O.) (CONT.)
07 Eu sempre quis jogar no ataque, como todo mundo. Mas nunca fui muito bom.
08 Até que aquele jogo mudou a minha vida...
09 Seguem-se cenas entrecortadas do jogo até que um pênalti é assinalado. O atacante prepara-
10 se para cobrá-lo contra o gol de Edgar. Edgar faz o sinal da cruz.
11 Da arquibancada, Mauro imita o gesto lentamente.
12 O Rabino Samuel, sentado atrás dele, lhe desfere um tapa na cabeça.
13 O ATACANTE cobra o pênalti. A bola está prestes a entrar na gaveta quando Edgar, numa
14 belíssima defesa, evita o gol.
15 A torcida delira.
16 Mauro fica pensativo e esboça um sorriso.
17 MAURO (V.O.) (CONT.)
18 E de repente eu descobri o que eu queria ser. Eu queria ser negro e voador...
(GALPERIN, Cláudio; MANTOVANI, Bráulio; MUYLAERT, Anna; HAMBURGUER, Cao. O ano em que meus pais saíram de férias. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. p. 150-151.)
Com base no texto 8, na leitura integral da obra O ano em que meus pais saíram de férias, publicada originalmente em 2008, e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)no texto 8, o emprego da vírgula na frase “Mauro, maravilhado.” (linha 05) marca a elipse do verbo em uma relação predicativa.
02)no texto 8, a flexão verbal no tempo presente marca os acontecimentos que integram a cena, enquanto a flexão no passado, aqueles que se localizam em um momento anterior à cena.
04)no texto 8, o Rabino Samuel “desfere um tapa na cabeça” (linha 12) de Mauro por o garoto demonstrar devoção ao goleiro.
08)no texto 8, a forma verbal “seguem-se” (linha 09) está no plural por o sujeito da sentença ser “cenas entrecortadas do jogo” (linha 09).
16)no texto 8, o desejo de Mauro de ser “negro” e “voador” (linha 18), na cena narrada, é antigo, como evidencia a flexão de tempo passado no verbo ‘querer’.
32)a cena do jogo, descrita no texto 8, se torna importante para Mauro por marcar o momento tão esperado do retorno de sua mãe.
64)Edgar é apresentado no roteiro como um símbolo de resistência à ditadura, com a representação do goleiro que defende tudo: “De soco, de mão trocada, com os pés, com a cabeça...” (linha 04).
UFSC2024Prova 1Questao 9PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
**Texto 8 — O ano em que meus pais saíram de férias** (roteiro)
01 PASSAGEM DE TEMPO.
02 O JUIZ apita. O jogo começa.
03 Em poucas jogadas, Mauro percebe que o time dos italianos está massacrando o time da casa.
04 Mas o goleiro Edgar defende tudo. De soco, de mão trocada, com os pés, com a cabeça...
05 A torcida está apreensiva. Mauro, maravilhado.
06 MAURO (V.O.) (CONT.)
07 Eu sempre quis jogar no ataque, como todo mundo. Mas nunca fui muito bom.
08 Até que aquele jogo mudou a minha vida...
09 Seguem-se cenas entrecortadas do jogo até que um pênalti é assinalado. O atacante prepara-
10 se para cobrá-lo contra o gol de Edgar. Edgar faz o sinal da cruz.
11 Da arquibancada, Mauro imita o gesto lentamente.
12 O Rabino Samuel, sentado atrás dele, lhe desfere um tapa na cabeça.
13 O ATACANTE cobra o pênalti. A bola está prestes a entrar na gaveta quando Edgar, numa
14 belíssima defesa, evita o gol.
15 A torcida delira.
16 Mauro fica pensativo e esboça um sorriso.
17 MAURO (V.O.) (CONT.)
18 E de repente eu descobri o que eu queria ser. Eu queria ser negro e voador...
(GALPERIN, Cláudio; MANTOVANI, Bráulio; MUYLAERT, Anna; HAMBURGUER, Cao. O ano em que meus pais saíram de férias. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. p. 150-151.)
**Texto 9 — As cobras (Luis Fernando Verissimo)** [tira — ver imagem]
Diálogo dos balões: "ELES VÃO CHUTAR! ELES VÃO MARCAR!" / "CALMA, DUDU. É PARA ISSO QUE O TIME TEM GOLEIRO" / "O GOLEIRO SOU EU!"
(VERISSIMO, Luis Fernando. As cobras: antologia definitiva. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.)
Com base nos textos 8 e 9 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)no texto 8, a passagem do tempo é marcada pela sequência dos acontecimentos descritos, enquanto no texto 9 se dá pela relação entre a linguagem verbal e a não verbal.
02)os textos afirmam a capacidade técnica dos dois goleiros para evitar a marcação de gols.
04)o pronome “isso” retoma o termo “calma”, expressando a ideia de que a função de um goleiro é transmitir calma tanto aos jogadores quanto à torcida.
08)a pontuação antes e depois de “Dudu” isola o sujeito da oração.
16)no texto 9, as letras em destaque no primeiro e no terceiro quadro são empregadas como um recurso para indicar o desespero do goleiro, contrastando com a fala dos espectadores.
32)o emprego do verbo ‘ir’, no primeiro quadro, indica marcação de tempo futuro.
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