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UFSC2022Prova 1Questao 1PortuguêsInterpretação de textoMedia
Diário da quarentena
Um relato sincero de um confinamento em família durante a pandemia
01 Algum momento em janeiro de 2020 — Li num jornal sobre um vírus na China. Que viagem
02 se preocuparem com um vírus na China. As pessoas morrem de dengue no Brasil e a imprensa
03 preocupada com moléstia de morcego na Cochinchina?
04 15 de março de 2020 — Duas semanas sem sair de casa. Minha irmã conseguiu um
05 esquema de compra de álcool em gel 70% na dark-web. Ela comprou 100 litros para mim. A ex-
06 -namorada do meu primo é irmã de um traficante de drogas, mísseis terra-ar e animais silvestres
07 que me conseguiu 10 máscaras N-95 em troca do nosso Honda Fit, mais seis parcelas de
08 R$ 2.000,00. Minha mulher ficou um pouco ressabiada com minha atitude intempestiva, mas foi
09 convencida de que é melhor estar vivo sem carro do que morto com carro.
10 15 de março de 2020 — Tem álcool em gel e máscara pra vender nas lojas Americanas a
11 R$ 9,99 o litro e
R$ 20,00 a dúzia. Frete grátis. Minha mulher ameaçou sair de casa. Eu disse que
12 ela não podia sair de casa por causa da quarentena. Dividimos a casa. Eu fico quarentenado no
13 lavabo, ela e as crianças no resto do apartamento. Ainda acho que saiu barato.
14 01 de abril de 2020 — O traficante devolveu meu Honda Fit! Mentira: 1º de abril! (Sei que é
15 estúpido tentar enganar a mim mesmo no primeiro de abril. Coisas da quarentena. No lavabo.).
16 20 de abril de 2020 — Minha mulher teve dificuldades para abrir um pote de palmito. Pediu
17 ajuda. Negociei bem: em troca, eu poderia usar o resto da casa. Sorte que minha mulher ama
18 palmito mais do que me odeia. Vitória!
19 23 de abril de 2020 — As crianças não aguentam mais ficar fechadas no apartamento.
20 Liberamos Netflix o dia inteiro. Liberamos sorvete o dia inteiro. Banho só aos domingos. O único
21 ponto em que conseguimos não transigir foi sobre fumarem cigarro e beberem uísque antes do
22 meio-dia. Isso não. Eles têm seis e cinco anos, precisam de regras.
23 26 de maio de 2020 — Começaram as aulas em casa, com apostilas e lives por hang-out. Ao
24 contrário do que eu pensava, não é só conectar e deixá-los ali. Tem que ficar do lado o tempo todo
25 ajudando. Buscando régua. Buscando tesoura. Buscando “botões de diferentes cores”. Buscando
26 “barbante ou outro tipo de linha”. Ensinando como põe e tira do mudo. Explicando que caxorro não
27 é com x. Reconectando quando cai. Não consigo mais trabalhar. Nem comer. Nem dormir.
28 27 de maio de 2020 — Eu e a minha mulher decidimos acabar com essa história de
29 homeschooling. (Adaptando aquela piada do cunhado: se homeschooling fosse bom, não tinha
30 “choo” no meio). Caso eu morra e este diário venha a público: Pedro, Bel, Paula, cunhado e
31 cunhadas queridos, amo vocês. É só uma piada pra mim mesmo no meu diário. Coisas da
32 quarentena.
33 3 de junho de 2020 — Meus filhos se revoltaram por não ter aula. Liberamos sorvete e Netflix
34 desde o café da manhã e cigarro e uísque depois das dez. Insistimos para que não fumem na
35 cama nem na cabana da Peppa, pelo risco de incêndio.
36 187 de junho — Sim. Cento e oitenta e sete de junho. Os dias não passam. As semanas não
37 passam. Estamos presos em 2020. #diadamarmotafeelings.
38 Julho. Acho — Tomei todo o uísque das crianças. Peguei a máquina de fazer barba e cortei o
39 meu cabelo e o delas. Liguei pra uma ex-namorada da quinta série, chorando. Vomitei em cima do
40 quebra-cabeças de 2.000 peças da Patrulha Canina que minha mulher e as crianças estavam
41 terminando de montar. Tuitei contra a #foicedesaopaulo e a #globolixo e só lembrei que eu
42 trabalhava para a Folha e a Globo quando ligaram de lá para me demitir. De volta pro lavabo.
43 Rezando para que saia logo a vacina. Ou para que ainda haja na despensa algum pote de palmito.
Antonio Prata, escritor e roteirista, autor de Nu, de botas.
Folha de São Paulo. 25 jul. 2020.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2020/07/diario-da-quarentena.shtml. [Adaptado].
Acesso em: 20 out. 2021.
Com base no texto 1 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)o texto evidencia a intensificação das dificuldades econômicas enfrentadas pelo narrador, que perde o emprego e precisa vender o carro para sustentar a família.
02)a ideia central do texto é que deveríamos nos preocupar com doenças que matam muitas pessoas todos os anos no Brasil, como a dengue, em vez de ficar em quarentena.
04)o termo “Tuitei” (linha 41) caracteriza-se como um verbo que segue as regras de formação morfológica do português brasileiro.
08)a experiência de “homeschooling” permitiu que a família estabelecesse novos laços afetivos ao oportunizar que os filhos desenvolvessem atividades escolares com a mediação dos pais.
16)as passagens “187 de junho” (linha 36) e “Julho. Acho” (linha 38) servem para dar a ideia da desorientação mental do narrador em função da grande quantidade de dias em quarentena.
32)as hashtags “#diadamarmotafeelings”, “#foicedesaopaulo” e “#globolixo” indicam sentimentos e posicionamentos conflitantes do narrador.
UFSC2022Prova 1Questao 2PortuguêsInterpretação de textoMedia
Diário da quarentena
Um relato sincero de um confinamento em família durante a pandemia
01 Algum momento em janeiro de 2020 — Li num jornal sobre um vírus na China. Que viagem
02 se preocuparem com um vírus na China. As pessoas morrem de dengue no Brasil e a imprensa
03 preocupada com moléstia de morcego na Cochinchina?
04 15 de março de 2020 — Duas semanas sem sair de casa. Minha irmã conseguiu um
05 esquema de compra de álcool em gel 70% na dark-web. Ela comprou 100 litros para mim. A ex-
06 -namorada do meu primo é irmã de um traficante de drogas, mísseis terra-ar e animais silvestres
07 que me conseguiu 10 máscaras N-95 em troca do nosso Honda Fit, mais seis parcelas de
08 R$ 2.000,00. Minha mulher ficou um pouco ressabiada com minha atitude intempestiva, mas foi
09 convencida de que é melhor estar vivo sem carro do que morto com carro.
10 15 de março de 2020 — Tem álcool em gel e máscara pra vender nas lojas Americanas a
11 R$ 9,99 o litro e
R$ 20,00 a dúzia. Frete grátis. Minha mulher ameaçou sair de casa. Eu disse que
12 ela não podia sair de casa por causa da quarentena. Dividimos a casa. Eu fico quarentenado no
13 lavabo, ela e as crianças no resto do apartamento. Ainda acho que saiu barato.
14 01 de abril de 2020 — O traficante devolveu meu Honda Fit! Mentira: 1º de abril! (Sei que é
15 estúpido tentar enganar a mim mesmo no primeiro de abril. Coisas da quarentena. No lavabo.).
16 20 de abril de 2020 — Minha mulher teve dificuldades para abrir um pote de palmito. Pediu
17 ajuda. Negociei bem: em troca, eu poderia usar o resto da casa. Sorte que minha mulher ama
18 palmito mais do que me odeia. Vitória!
19 23 de abril de 2020 — As crianças não aguentam mais ficar fechadas no apartamento.
20 Liberamos Netflix o dia inteiro. Liberamos sorvete o dia inteiro. Banho só aos domingos. O único
21 ponto em que conseguimos não transigir foi sobre fumarem cigarro e beberem uísque antes do
22 meio-dia. Isso não. Eles têm seis e cinco anos, precisam de regras.
23 26 de maio de 2020 — Começaram as aulas em casa, com apostilas e lives por hang-out. Ao
24 contrário do que eu pensava, não é só conectar e deixá-los ali. Tem que ficar do lado o tempo todo
25 ajudando. Buscando régua. Buscando tesoura. Buscando “botões de diferentes cores”. Buscando
26 “barbante ou outro tipo de linha”. Ensinando como põe e tira do mudo. Explicando que caxorro não
27 é com x. Reconectando quando cai. Não consigo mais trabalhar. Nem comer. Nem dormir.
28 27 de maio de 2020 — Eu e a minha mulher decidimos acabar com essa história de
29 homeschooling. (Adaptando aquela piada do cunhado: se homeschooling fosse bom, não tinha
30 “choo” no meio). Caso eu morra e este diário venha a público: Pedro, Bel, Paula, cunhado e
31 cunhadas queridos, amo vocês. É só uma piada pra mim mesmo no meu diário. Coisas da
32 quarentena.
33 3 de junho de 2020 — Meus filhos se revoltaram por não ter aula. Liberamos sorvete e Netflix
34 desde o café da manhã e cigarro e uísque depois das dez. Insistimos para que não fumem na
35 cama nem na cabana da Peppa, pelo risco de incêndio.
36 187 de junho — Sim. Cento e oitenta e sete de junho. Os dias não passam. As semanas não
37 passam. Estamos presos em 2020. #diadamarmotafeelings.
38 Julho. Acho — Tomei todo o uísque das crianças. Peguei a máquina de fazer barba e cortei o
39 meu cabelo e o delas. Liguei pra uma ex-namorada da quinta série, chorando. Vomitei em cima do
40 quebra-cabeças de 2.000 peças da Patrulha Canina que minha mulher e as crianças estavam
41 terminando de montar. Tuitei contra a #foicedesaopaulo e a #globolixo e só lembrei que eu
42 trabalhava para a Folha e a Globo quando ligaram de lá para me demitir. De volta pro lavabo.
43 Rezando para que saia logo a vacina. Ou para que ainda haja na despensa algum pote de palmito.
Antonio Prata, escritor e roteirista, autor de Nu, de botas.
Folha de São Paulo. 25 jul. 2020.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2020/07/diario-da-quarentena.shtml. [Adaptado].
Acesso em: 20 out. 2021.
Com base no texto 1 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)o texto 1 estimula o consumo de drogas lícitas, como cigarro e álcool, por menores de idade.
02)na passagem “Algum momento em janeiro de 2020” (linha 01), o pronome indefinido sublinhado se refere, de modo vago e impreciso, a uma data qualquer de janeiro.
04)após o ápice de seu descontrole no mês de julho, o narrador encerra o texto arrependido e em oração pelo fim da pandemia e para que não falte alimento em sua despensa.
08)os parênteses (linhas 14-15) são um recurso utilizado para oferecer explicações ao leitor sobre um ponto que não se relaciona com a narrativa.
16)a passagem “Ainda acho que saiu barato” (linha 13) faz referência ao valor pago pelas 10 máscaras N-95.
32)o texto é predominantemente narrado no pretérito.
UFSC2022Prova 1Questao 4PortuguêsInterpretação de textoMedia
Com base no texto 3 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)o texto 3 evidencia que a mãe não se preocupa com o filho, apenas com o trabalho.
02)o texto 3 é uma peça publicitária de uma marca de alimentos veiculada na mídia para problematizar a condição de gênero da mulher em tempos de pandemia.
04)no contexto, o uso do verbo “estar” no presente indica a ocupação da mãe naquele momento, o verbo “entrar” no imperativo sinaliza uma ordem e o verbo “ser” no futuro antecipa respostas a questões que podem vir a ser feitas.
08)trata-se de uma forma de interação produzida por uma mãe em que se respondem a perguntas que poderiam ser feitas durante a jornada de trabalho remoto dela.
16)a mãe justifica que não fará almoço pois estará em reunião.
32)o elenco de termos e frases desconexas como “UMA FRUTA”, “NÃO” e “NO SEU QUARTO” dificulta a compreensão da mensagem central.
64)o uso do advérbio “certamente” remete à ideia de que a mãe é questionada frequentemente sobre as mesmas coisas.
UFSC2022Prova 1Questao 8PortuguêsInterpretação de textoMedia
liberdade
01 Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu
02 telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então eu digo até logo e vou fazer
03 outra coisa.
LISPECTOR, Clarice. liberdade. In: LISPECTOR, Clarice. Crônicas para jovens: de amor e amizade. Rio de
Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010. p. 117.
Com base na leitura do texto 7, na obra Crônicas para jovens: de amor e amizade, de Clarice Lispector, no contexto sócio-histórico e literário e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)o emprego do termo “ou” (linha 01) marca uma relação de antagonismo entre os termos “simplicidade” (linha 01) e “liberdade” (linha 01).
02)o texto 7 é marcado pela presença das vozes da narradora e de sua amiga.
04)a narradora do texto 7 aceita com naturalidade a recusa de sua interlocutora de continuar o diálogo.
08)Clarice Lispector escreveu essa obra com o objetivo de aproximar sua literatura dos jovens, especialmente dos não leitores, razão pela qual fez uso de textos curtos e simples.
UFSC2022Prova 1Questao 11PortuguêsInterpretação de textoDificil
[Fragmento 1]
01 Ainda esperei que fosse cair na seção dos pensionistas; mas assim não foi. Entrei para a
02 Pinel, para a seção dos pobres, dos sem ninguém, para aquela em que a imagem do que a
03 Desgraça pode sobre a vida dos homens é mais formidável e mais cortante.
04 O mobiliário, o vestuário das camas, as camas — tudo é de uma pobreza sem-par. O
05 acúmulo dos doentes, o sombrio da dependência que fica no andar térreo e o pátio interno é
06 quase ocupado pelo pavilhão das latrinas de ambos os andares — tirando-lhe a luz, tudo isso
07 lhe dá má atmosfera de hospital, de emanações de desinfetantes, uma morrinha terrível.
08 (p. 164)
[Fragmento 2]
09 Alguns não suportam roupa no corpo, às vezes totalmente, outras vezes em parte. Na Seção
10 Pinel, num pátio que ficavam os mais insuportáveis, dez por cento deles andava nu ou
11 seminu. Esse pátio é a coisa mais horrível que se pode imaginar. Devido à pigmentação
12 negra de uma grande parte dos doentes aí recolhidos, a imagem que se fica dele, é que tudo
13 é negro. O negro é a cor mais cortante, mais impressionante; e contemplando uma porção de
14 corpos negros nus, faz ela que as outras se ofusquem no nosso pensamento. É uma luz
15 negra sobre as coisas, na suposição de que, sob essa luz, o nosso olhar pudesse ver alguma
16 coisa. Aí é que há os berradores; mas, como em toda a parte, são só os seus gritos que
17 enchem o ambiente. Eles são relativamente poucos. (p. 168)
[Fragmento 3]
18 Não pude fumar um cigarro até ao fim. Vieram-me chamar. Era um bom vizinho, negociante
19 dos subúrbios, humano e compassivo. Minha família comprava na sua venda e, a bem dizer,
20 foi dela que saí da segunda vez para o hospício. Deu-me cigarros e jornais. Conversamos
21 dez minutos, e senti bem, naquele homem simples, de pouca cultura, a piedade profunda que
22 lhe inspirava. Foi a segunda satisfação que o hospício me dava. Havia bondade, simpatia de
23 homem para homem, independente de interesse e parentesco. (p. 172)
LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. O cemitério dos vivos. In: LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Diário
do hospício; O cemitério dos vivos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
A carne — Intérprete: Elza Soares — Compositores: Marcelo Yuca / Seu Jorge / Ulisses Cappelletti
01 A carne mais barata do mercado é a
02 carne negra (5x)
03 Que vai de graça pro presídio
04 E para debaixo do plástico
05 Que vai de graça pro subemprego
06 E pros hospitais psiquiátricos
07 A carne mais barata do mercado é a
08 carne negra (5x)
09 Que fez e faz história
10 Segurando esse país no braço
11 O cabra aqui não se sente revoltado
12 Porque o revólver já está engatilhado
13 E o vingador é lento
14 Mas muito bem-intencionado
15 E esse país
16 Vai deixando todo mundo preto
17 E o cabelo esticado
18 Mas mesmo assim
19 Ainda guardo o direito
20 De algum antepassado da cor
21 Brigar sutilmente por respeito
22 Brigar bravamente por respeito
23 Brigar por justiça e por respeito
24 De algum antepassado da cor
25 Brigar, brigar, brigar
26 A carne mais barata do mercado é a carne
27 negra (5x)
Com base nos textos 8 e 9 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
01)para a compreensão do texto 9, é necessária a leitura prévia do texto 8.
02)o texto 9 denuncia a discriminação que marginaliza negros e pobres já apontada no texto 8.
04)o texto 9 faz uso da função poética da linguagem na produção de uma letra de canção e o texto 8 traz fragmentos de narrativas típicas dos textos argumentativos.
08)em “Brigar sutilmente por respeito” (linha 21), seguido por “Brigar bravamente por respeito” (linha 22), no texto 9, a progressão textual é sustentada pela ideia da intensificação da luta por respeito.
16)no texto 9, em “O cabra aqui não se sente revoltado” (linha 11), o sujeito da oração é um substantivo feminino.
32)no texto 9, o termo “que” (linhas 03, 05 e 09) tem a função de marcar a interrogação que questiona o racismo.
64)o estribilho (linhas 01, 02, 07, 08, 26 e 27) critica a objetificação do negro, tomado como coisa de baixo valor para a sociedade.
UFSC2022Prova 1Questao 12PortuguêsInterpretação de textoMedia
Com base no texto 10 e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que:
Imagens anexadas
01)a primeira e a segunda vírgulas marcam um vocativo e uma oração coordenada adversativa, respectivamente.
02)o uso dos dois-pontos serve para enumerar os 12 trabalhos a serem realizados por Hércules.
04)o quadro estabelece uma relação de intertextualidade com o texto bíblico do Antigo Testamento que narra os feitos de Hércules.
08)o texto denuncia de forma irônica o aumento da precarização do trabalho.
16)o efeito de humor da charge consiste no fato de Hércules possuir pernas finas, inaptas a trabalhos que exijam força física.
32)o termo “agora” é responsável pela contextualização da crítica da charge.
UFSC2018Prova 1Questao 2PortuguêsInterpretação de textoMedia
Texto 1 — O Brasil entre a norma culta e a norma curta
01 Boa parte de nossa elite letrada do século XIX desejava ardentemente viver numa sociedade
02 branca e europeia. Tinha, portanto, de virar as costas para o país real, figurá-lo diferente do
03 que era. Não à toa essa elite defendeu o que se costumava chamar “higienização da raça”,
04 ou seja, a implementação de políticas que resultassem no “embranquecimento” do país.
05 Em matéria de língua, essa elite vivia complexas contradições. Duas realidades eram
06 evidentes para todos: o português de cá tinha diferenças em relação ao português europeu;
07 e aqui dentro o “nosso” português diferia do português do “vulgo”. Na construção do novo
08 país, como resolver esse duplo eixo de diferenças?
09 Quando se acirrou, no século XIX, a questão da norma culta, nossas diferenças foram logo
10 interpretadas como deturpações da língua. Não adiantou José de Alencar, no seu esforço
11 para abrasileirar a norma escrita, apelar para os clássicos, a fim de mostrar a antiguidade de
12 fatos da língua do Brasil. O que prevaleceu foi a imagem de que somos uma sociedade que
13 fala e escreve mal a língua portuguesa. E tudo o que – no português culto brasileiro – não
14 coincidia com certa norma lusitana passou a ser listado por gramatiqueiros pseudopuristas
15 como erro.
16 Nessa guerra, venceram os conservadores, definindo certa norma lusitana do romantismo
17 como modelo para nossa escrita. Como eram claras, inevitáveis e persistentes as diferenças
18 da norma culta brasileira em relação a esse padrão artificialmente fixado, foi preciso construir
19 uma norma “curta”, um discurso categórico, uma contínua desqualificação do falante
20 brasileiro.
21 Nem o desenvolvimento dos estudos filológicos e linguísticos, nem a rebelião literária de
22 1922, nem a crítica da norma curta por nossos melhores filólogos, nada disso conseguiu
23 romper a força do imaginário construído no século XIX. Ainda se diz que os brasileiros falam
24 errado, não sabem falar português, tratam mal sua língua e assim por diante.
25 Não é difícil mostrar com fatos e argumentos lógico-racionais que essas certezas não
26 existem. Mas o imaginário resiste aos fatos, aos argumentos lógico-racionais. Fica, então, a
27 pergunta que não quer calar: como enfrentar poderosos imaginários?
FARACO, C. A. O Brasil entre a norma culta e a norma curta. In: LAGARES, X. C.; BAGNO, M. (Org.). Políticas da norma e conflitos linguísticos. São Paulo: Parábola, 2011, p. 259-275. [Adaptado].
Obs.: A noção de “norma culta” equivale à noção de “variedade padrão”, termo utilizado no Edital 06/Coperve/2017 e no Programa das Disciplinas.
Com base no Texto 1, é correto afirmar que:
01)o título do texto remete ao contraste que existe, desde o século XIX até os dias atuais, entre o português europeu e o português brasileiro: àquele corresponde a norma culta, efetivamente usada em Portugal; a este, a norma curta, efetivamente usada no Brasil.
02)José de Alencar é representante de um ideário romântico de abrasileiramento que defendia uma literatura que expressasse a língua do “vulgo”, contrapondo esta língua ao padrão europeu.
04)os termos “norma culta” e “norma curta” remetem a realidades distintas no Brasil, respectivamente: à norma praticada de fato, que corresponde ao português culto brasileiro, e à norma artificial, um padrão categoricamente fixado, que desqualifica o falante brasileiro.
08)infere-se que o Brasil ainda vive duas realidades normativas conflitantes no que se refere à língua: o português brasileiro versus o português europeu e o português brasileiro culto versus o português brasileiro popular.
16)infere-se que a noção de norma linguística é complexa, pois envolve um entrelaçamento de fatores diversos, além de poderosos elementos do imaginário social.
32)os termos “gramatiqueiros” e “pseudopuristas” designam os estudiosos que descrevem a norma culta efetivamente usada pelos brasileiros.
64)a escrita brasileira, no século XIX, apresentava fatos da língua diferentes daqueles encontrados em autores clássicos antigos, por isso José de Alencar a considerava uma deturpação da norma europeia.
UFSC2018Prova 1Questao 3PortuguêsInterpretação de textoMedia
Texto 1 — O Brasil entre a norma culta e a norma curta
01 Boa parte de nossa elite letrada do século XIX desejava ardentemente viver numa sociedade
02 branca e europeia. Tinha, portanto, de virar as costas para o país real, figurá-lo diferente do
03 que era. Não à toa essa elite defendeu o que se costumava chamar “higienização da raça”,
04 ou seja, a implementação de políticas que resultassem no “embranquecimento” do país.
05 Em matéria de língua, essa elite vivia complexas contradições. Duas realidades eram
06 evidentes para todos: o português de cá tinha diferenças em relação ao português europeu;
07 e aqui dentro o “nosso” português diferia do português do “vulgo”. Na construção do novo
08 país, como resolver esse duplo eixo de diferenças?
09 Quando se acirrou, no século XIX, a questão da norma culta, nossas diferenças foram logo
10 interpretadas como deturpações da língua. Não adiantou José de Alencar, no seu esforço
11 para abrasileirar a norma escrita, apelar para os clássicos, a fim de mostrar a antiguidade de
12 fatos da língua do Brasil. O que prevaleceu foi a imagem de que somos uma sociedade que
13 fala e escreve mal a língua portuguesa. E tudo o que – no português culto brasileiro – não
14 coincidia com certa norma lusitana passou a ser listado por gramatiqueiros pseudopuristas
15 como erro.
16 Nessa guerra, venceram os conservadores, definindo certa norma lusitana do romantismo
17 como modelo para nossa escrita. Como eram claras, inevitáveis e persistentes as diferenças
18 da norma culta brasileira em relação a esse padrão artificialmente fixado, foi preciso construir
19 uma norma “curta”, um discurso categórico, uma contínua desqualificação do falante
20 brasileiro.
21 Nem o desenvolvimento dos estudos filológicos e linguísticos, nem a rebelião literária de
22 1922, nem a crítica da norma curta por nossos melhores filólogos, nada disso conseguiu
23 romper a força do imaginário construído no século XIX. Ainda se diz que os brasileiros falam
24 errado, não sabem falar português, tratam mal sua língua e assim por diante.
25 Não é difícil mostrar com fatos e argumentos lógico-racionais que essas certezas não
26 existem. Mas o imaginário resiste aos fatos, aos argumentos lógico-racionais. Fica, então, a
27 pergunta que não quer calar: como enfrentar poderosos imaginários?
FARACO, C. A. O Brasil entre a norma culta e a norma curta. In: LAGARES, X. C.; BAGNO, M. (Org.). Políticas da norma e conflitos linguísticos. São Paulo: Parábola, 2011, p. 259-275. [Adaptado].
Obs.: A noção de “norma culta” equivale à noção de “variedade padrão”, termo utilizado no Edital 06/Coperve/2017 e no Programa das Disciplinas.
Considerando o Texto 1, é correto afirmar que:
01)em “Não à toa essa elite defendeu [...]” (linha 03), a expressão sublinhada pode ser substituída no texto por “ao acaso”, sem prejuízo de significado.
02)em “[...] a implementação de políticas que resultassem [...]” (linha 04), o vocábulo sublinhado funciona como pronome relativo, estabelecendo relação entre orações e retomando um antecedente.
04)em “o português de cá tinha diferenças [...] e aqui dentro o ‘nosso’ português diferia [...]” (linhas 06-07), os advérbios de lugar sublinhados referem-se a espaços geográficos distintos: Brasil e Portugal, respectivamente.
08)as perguntas (linhas 07-08 e 27) são usadas como recursos expressivos, sendo respondidas pelo próprio autor ao longo do texto.
16)o sinal de dois-pontos (linhas 06 e 27) é usado, nas duas ocorrências, para introduzir informações que esclarecem o conteúdo apresentado anteriormente em cada uma delas.
32)as palavras “higienização” (linha 03), “embranquecimento” (linha 04), “gramatiqueiros” (linha 14) e “desqualificação” (linha 19) são formadas pelo mesmo processo: são nomes abstratos derivados de verbos pelo acréscimo de sufixos.
UFSC2018Prova 1Questao 7PortuguêsInterpretação de textoMedia
Texto 3
01 Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de
02 Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma
03 bandalheira preta que lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Segue-a através dos
04 becos de Cântaro até um sumário – uma espécie de jardim enclausurado –, onde ela deixa
05 cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena escada estreita, e
06 desaparece por uma porciúncula. Lipídio a segue. Vê-se num longo conluio que leva a uma
07 prótese entreaberta. Ele entra. Lascívia está sentada num trunfo em frente ao seu pinochet,
08 penteando-se. Lipídio, que sempre carrega consigo um fanfarrão (instrumento primitivo de
09 sete cordas), começa a cantar uma balada. […]
VERISSIMO, Luis Fernando. Palavreado. In: Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 73-74.
Com base na leitura e interpretação do Texto 3, na obra Comédias para se ler na escola, de Luis Fernando Verissimo, bem como no contexto sócio-histórico e literário, é correto afirmar que:
01)embora as crônicas da coletânea sejam predominantemente narrativas – podendo-se, por vezes, confundi-las com contos –, algumas delas ultrapassam a estrutura prevista para o gênero crônica, aproximando-se de poemas e de anúncios classificados.
02)no Texto 3, algumas palavras são ressignificadas, ou seja, passam a ter outras acepções no contexto, como é o caso de “trovador”, “bandalheira”, “cabriolé”, “escrutínio”, “porciúncula” e “balada”.
04)as crônicas estão organizadas em seções que reúnem textos com temas semelhantes e que abordam questões relacionadas a infância, adolescência e memória, bem como assuntos de fundo moralizante que têm animais como personagens.
08)a terceira frase do Texto 3 (linhas 02-03) pode ser assim reescrita, sem prejuízo de significado no texto e em conformidade com a norma culta da língua escrita: “Vestindo uma bandalheira preta, avista uma mulher que lança a ele um olhar cheio de betume e cabriolé.”.
16)o texto “Palavreado” apresenta três narrativas motivadas por reflexões sobre as palavras “fornida”, “falácia” e “lorota”, respectivamente; é na primeira delas que o narrador explora
desenlace, um final infeliz.
32)“Palavreado” dialoga com outras crônicas da coletânea no sentido de promover reflexões sobre a significação das palavras, para as quais são sugeridos outros significados.
64)no Texto 3, a construção “Segue-a através dos becos” (linhas 03-04) pode ser reescrita como “Segue ela através do becos”, sem desvio da norma culta da língua escrita.
UFSC2018Prova 1Questao 10PortuguêsInterpretação de textoMedia
Texto 4
01 Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha
02 boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada, custei a reconhecer o
03 quarto da nova casa em que eu estava morando e não conseguia me lembrar de como
04 havia chegado até ali. E a insistente pergunta martelando, martelando. De que cor eram
05 os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso
06 dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de
07 minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela
08 noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusativo. Então
09 eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?
EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. In: Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, Fundação Biblioteca Nacional, 2015, p. 15. [Adaptado].
Considerando o Texto 4, é correto afirmar que:
01)as construções “De que cor eram os olhos de minha mãe?” (linha 02) e “eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe” (linhas 06-07) remetem, respectivamente, a um mero pensamento interrogativo e à explosão de uma inesperada pergunta.
02)pergunta” (linha 08), o adjetivo anteposto ao substantivo, em cada uma das ocorrências, assume valor mais subjetivo do que se estivesse posposto.
04)em “o quarto da nova casa em que eu estava morando” (linhas 02-03), o pronome relativo precedido de preposição pode ser substituído por “a qual” ou por “aonde”, sem prejuízo de significado no texto e em conformidade com a norma culta da língua escrita.
08)as locuções verbais “havia chegado” (linha 04), “havia surgido” (linha 05) e “tinha sido” (linha 07) equivalem, respectivamente, às formas verbais simples “chegara”, “surgira” e “fora” e expressam situações passadas que são anteriores a outras também passadas.
16)existe uma linearidade cronológica no texto: a expressão “Uma noite, há anos” (linha 01) situa temporalmente a pergunta que explodiu da boca da narradora, e as expressões “há dias” e “há meses” (linha 05) aproximam do presente a mesma indagação que continuou se repetindo.
32)em “Então eu não sabia” (linhas 08-09), o vocábulo sublinhado funciona como conector que estabelece relação de condicionalidade entre as informações.
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