Literatura brasileira (prosa) · UNICAMP

Literatura brasileira (prosa): questões do UNICAMP

27 questões de Literatura brasileira (prosa) (Português) no UNICAMP (2016–2026). Treine de graça com correção e comentário.

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Questões de Literatura brasileira (prosa) no UNICAMP

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UNICAMP20261a faseQuestao 60PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
Em seu ensaio “A vida não é útil”, Ailton Krenak elege Carlos Drummond de Andrade como um de seus “escudos”. Ele cita a última estrofe de “O Homem; as Viagens”, poema publicado em As impurezas do Branco (1973). Reproduzimos, a seguir, a primeira e a segunda estrofe desse poema: “O Homem; as Viagens O homem, bicho da Terra tão pequeno chateia-se na Terra lugar de muita miséria e pouca diversão, faz um foguete, uma cápsula, um módulo toca para a Lua desce cauteloso na Lua pisa na Lua planta bandeirola na Lua experimenta a Lua coloniza a Lua civiliza a Lua humaniza a Lua. Lua humanizada: tão igual à Terra. O homem chateia-se na Lua. Vamos para Marte – ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o homem desce em Marte pisa em Marte experimenta coloniza civiliza humaniza Marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. (...)”. (ANDRADE, C. D. O Homem; As viagens, As impurezas do Branco. In: Poesia Completa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, p. 718, 2002.) (KRENAK, A. A vida não é útil. Pesquisa e organização de Rita Carelli. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.) Em relação às reflexões de Ailton Krenak, é correto afirmar que esse trecho do poema
  1. A)responsabiliza a ciência e tecnologia, desgastadas em seus valores, pela corrosão das relações nas sociedades contemporâneas.
  2. B)mostra que os Homens, guiados pela ideia de progresso, não adotam uma postura consciente em relação ao seu espaço.
  3. C)evidencia que a Terra, desgastada em seus valores, foi superada pelos elementos da conquista espacial.
  4. D)identifica a aniquilação das sociedades contemporâneas nos programas de governos persuadidos pelo progresso.
UNICAMP20261a faseQuestao 61PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
Leia os textos 1 e 2. Texto 1 Aos óculos Só fingem que põem o mundo ao alcance dos meus olhos míopes. Na verdade, me exilam dele com filtrar-lhe a menor imagem. Já não vejo as coisas como são: vejo-as como eles querem que as veja. Logo, são eles que veem, não eu que, mesmo cônscio do logro, lhes sou grato por anteciparem em mim o Édipo curioso de suas próprias trevas. (PAES, J. P. Prosas seguidas de Odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, p. 63, 1992.) Texto 2 “Do grego odé e do latim ōde (ou ōda), a ode era, na antiguidade clássica, um poema destinado a ser cantado, ou um canto alegre, triste ou lírico. Era um poema de alguma extensão, de elevado assunto ou nobre, expressando sentimentos ilustres, em homenagem a algo ou a alguém. Apresentava também a elaboração estrófica, bem como estilo formal nobre e cerimonioso”. (Adaptado do verbete “Ode”, elaborado por Ana Ladeira. In: CEIA, C. E-Dicionário de termos literários (projeto abrigado pela Universidade Nova de Lisboa). Disponível em https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/ode. Acesso em 31/05/2025.) É correto afirmar que a ode mínima de José Paulo Paes reelabora a definição clássica de “ode” ao
  1. A)respeitar a elevação do assunto, a nobreza do tom e os sentimentos ilustres.
  2. B)utilizar-se de um tom elevado e cerimonioso para a homenagem.
  3. C)dirigir-se a um objeto, vinculando-se ao gênero canção popular.
  4. D)celebrar um objeto fundamental, os óculos, e não algo/alguém ilustre.
UNICAMP20261a faseQuestao 62PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
No conto “Réplica”, que integra a coletânea No seu pescoço, de Chimamanda Adichie, a protagonista vive
  1. A)o choque cultural, consequente das diásporas africanas contemporâneas, reelaborado pelas observações de Nkem.
  2. B)as contradições culturais, consequentes do processo de recolonização da Nigéria, expressas pelos negócios ilícitos de Obiora.
  3. C)a opressão feminina, consequente da falência do modelo africano de sororidade, como no relato de Ijemamaka.
  4. D)o sentimento de nacionalismo, consequente das saudades de práticas culturais, como no estranhamento dos vizinhos brancos (povo oyibo).
UNICAMP20261a faseQuestao 63PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
Leia a citação a seguir, extraída do conto “Pera, uva ou maçã?”, publicado no livro Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu, e assinale a alternativa correta sobre o excerto. Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagarinho as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada e foi aí que eu reparei naquelas pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e uma porrada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório. (ABREU, C. F. Morangos Mofados. 9ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, p. 105-106, 2015.)
  1. A)A presença de orações como “foi então que vi”, “foi aí que eu reparei” e “só aí eu entendi” cria um efeito de retardamento da narrativa, o que reflete o estado psicológico de apatia da personagem que fala.
  2. B)A ausência de pontuação cria um efeito de aceleração da narrativa, o que reflete o estado psicológico de ansiedade da personagem que fala.
  3. C)A presença de orações como “foi então que vi”, “foi aí que eu reparei” e “só aí eu entendi” rompe a sequência temporal da narrativa, prejudicando o seu desenvolvimento lógico.
  4. D)A ausência de pontuação desorganiza a sequência das ações da personagem, o que reflete sua confusão e causa uma ambiguidade de sentido em sua narrativa.
UNICAMP20261a faseQuestao 64PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
O sineiro era um preto velho e doido. Não fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ninguém lhe falava, embora fosse manso. [...] Com a razão, perdera a convivência dos mais. Vivia entregue aos pensamentos solitários, mergulhado na inconsciência e na solidão. A moça representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da consciência antiga. (ASSIS, M. de. Casa Velha. Apresentação e notas de Paulo Franchetti. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, p. 85-86, 2023.) No enredo de Casa Velha, é possível afirmar que a cena em que aparece a figura do sineiro cumpre o papel de
  1. A)mostrar a solidariedade de classe desenvolvida por Lalau que, sendo uma agregada, identifica seus interesses com os do velho sineiro.
  2. B)exibir o caráter caridoso de Dona Antônia, que mantém o escravizado sob seus cuidados mesmo após deixar de ser útil como trabalhador.
  3. C)expor a Dona Antônia o sentimento existente entre Lalau e seu filho, enquanto ele observa a compaixão da moça pelo sineiro.
  4. D)sugerir a complexidade da organização social característica da Casa Velha, na qual se via representada toda a sociedade humana.
UNICAMP20261a faseQuestao 65PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
Leia os versos da canção abaixo e assinale a alternativa correta. ALVORADA Alvorada lá no morro, que beleza, Ninguém chora, não há tristeza, Ninguém sente dissabor. O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo. E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo. Você também me lembra a alvorada Quando chega iluminando Meus caminhos tão sem vida. E o que me resta é bem pouco, quase nada, do que ir assim vagando numa estrada perdida. (CARTOLA. Alvorada. In: Cartola. Rio de Janeiro: Marcus Pereira Discos, 1974.)
  1. A)O eu-lírico enfatiza a harmonia entre a cena idílica do morro no momento da alvorada e a alegria de sua vida junto à pessoa amada.
  2. B)O eu-lírico enfatiza um contraste entre a alegria da alvorada no morro e a pobreza das pessoas que habitam aquele espaço.
  3. C)A alvorada no morro é, para o eu-lírico, como a imagem da pessoa amada, que lhe traz alegria, apesar de sua desilusão e desesperança.
  4. D)A alvorada no morro funciona, no poema, como imagem do futuro que pode ser transformado pelo amor, apesar das condições de vida difíceis.
UNICAMP20201a faseQuestao 57PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
“O que é então o verossímil? Para encurtar: tudo aquilo em que a confiança é presumida. Por exemplo, os juízes nem sempre são independentes, os médicos nem sempre capazes, os oradores nem sempre sinceros. Mas presumese que o sejam; e, se alguém afirmar o contrário, cabe-lhe o ônus da prova. Sem esse tipo de presunção, a vida seria impossível; e é a própria vida que rejeita o ceticismo.” (Olivier Reboul, Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 97-98.) Considerando o segundo “Sermão da Quarta-feira de Cinza” (1673), de Antonio Vieira, é correto afirmar que a presunção de confiança por parte do auditório cristão do século XVII decorre da
  1. A)habilidade política do pregador.
  2. B)atenção disciplinada dos ouvintes.
  3. C)crença na salvação e na danação eternas.
  4. D)defesa institucional da Igreja Católica feita pelo clero.
UNICAMP20201a faseQuestao 59PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
As palavras organizadas comunicam sempre alguma coisa, que nos toca porque obedece a certa ordem. Quando recebemos o impacto de uma produção literária, oral ou escrita, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com a sua organização. Em palavras usuais: o conteúdo de uma obra literária só atua por causa da forma. (Adaptado de Antonio Candido, “O direito à literatura”, em Vários escritos. São Paulo: Ouro sobre azul e Duas Cidades, 2004, p.178.) A obra Sobrevivendo no inferno do grupo Racionais Mc’s é composta pelas canções e pelo projeto editorial da capa e contracapa do CD. Nesse projeto editorial, encontram-se elementos visuais e verbais que estabelecem um jogo de formas e sentidos. Com base na afirmação de Antonio Candido, é correto afirmar que a organização desses elementos
  1. A)produz uma simetria entre som e sentido, sendo que tal simetria indica que os símbolos religiosos são uma resposta à violência.
  2. B)configura um sistema de oposições, uma vez que imagens e palavras estabelecem tensões materiais e espirituais, constitutivas do sentido das canções.
  3. C)configura uma sintaxe poética de ordem espiritual. Essa sintaxe espelha o caos e as injustiças vividos na periferia das grandes cidades.
  4. D)produz uma lógica poética racional. Essa lógica se explicita na vitória do crime sobre a visão de mundo presente nos versículos bíblicos transcritos.
UNICAMP20201a faseQuestao 61PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
“Para inaugurar é preciso ter um defunto. Mas, por desgraça, nenhum turista se afoga, nenhuma calamidade se abate sobre a cidade e os moribundos têm o desplante de ressuscitarem. Na ordem estabelecida por Odorico, o bem vira mal e o mal, bem.” (Anatol Rosenfeld, “A obra de Dias Gomes”, em Teatro de Dias Gomes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. xxvii.) A comicidade de O Bem-amado, de Dias Gomes, deriva em grande medida da inversão de valores que a peça encena. Considerando os propósitos satíricos da obra, assinale a alternativa que evidencia tal inversão.
  1. A)A destinação de recursos para a construção de um cemitério público confere dignidade aos mortos.
  2. B)A hospitalidade dada aos doentes ilustra o uso do orçamento em prol do sistema público de saúde.
  3. C)A promoção do pistoleiro a delegado de polícia visa à reinserção social do criminoso.
  4. D)A inauguração do cemitério dá oportunidade a que se reverencie a memória do benfeitor da cidade.
UNICAMP20201a faseQuestao 62PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
No livro A cabra vadia: novas confissões, Nelson Rodrigues inicia a crônica “Os dois namorados” com a seguinte afirmação: “há coisas que um grã-fino só confessa num terreno baldio, à luz de archotes, e na presença apenas de uma cabra vadia.” Na crônica “Terreno baldio” ele recorre ao mesmo animal para explicar a ideia que teve de criar “entrevistas imaginárias”: “Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências.” (Nelson Rodrigues, A cabra vadia: novas confissões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p. 52 e160.) O caráter confessional associado à figura da cabra nas crônicas tem relação com
  1. A)a veracidade dos depoimentos que o cronista testemunha nas entrevistas.
  2. B)a impostura dos contemporâneos que são objeto dos comentários do cronista.
  3. C)a antipatia do jornalista no que diz respeito à busca de identidade dos artistas entrevistados.
  4. D)a sinceridade dos intelectuais que são objeto das crônicas dos jornalistas.
UNICAMP20191a faseQuestao 7PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
Para driblar a censura imposta pela ditadura militar, compositores de música popular brasileira (MPB) valiam-se do que Gilberto Vasconcelos chamou de “linguagem da fresta”, expressão inspirada na canção “Festa imodesta”, de Caetano Veloso. (...) Numa festa imodesta como esta Vamos homenagear Todo aquele que nos empresta sua testa Construindo coisas pra se cantar Tudo aquilo que o malandro pronuncia E que o otário silencia Toda festa que se dá ou não se dá Passa pela fresta da cesta e resta a vida. Acima do coração que sofre com razão A razão que volta do coração E acima da razão a rima E acima da rima a nota da canção Bemol natural sustenida no ar Viva aquele que se presta a esta ocupação Salve o compositor popular (Gilberto de Vasconcelos, Música popular: de olho na fresta. Rio de Janeiro: Graal, 1977.) É correto afirmar que, na canção, essa “linguagem da fresta” transparece
  1. A)na contradição entre “festa” e “fresta”, que funciona como crítica ao malandro.
  2. B)na repetição de palavras com pronúncia semelhante para louvar a MPB.
  3. C)na referência à “fresta” como forma de o compositor se pronunciar.
  4. D)na incoerência da rima entre “festa” e “imodesta” para prestigiar o compositor.
UNICAMP20191a faseQuestao 8PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Dificil
“Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.” (Clarice Lispector, “Amor”, em Laços de família. 20ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990, p. 39.) Ao caracterizar a personagem Ana, a expressão “piedade de leão” reúne valores opostos, remetendo simultaneamente à compaixão e à ferocidade. É correto afirmar que, no conto “Amor”, essa formulação
  1. A)revela um embate de natureza social, já que a pobreza do cego causa náuseas na personagem.
  2. B)expressa o dilema cristão da alma pecadora diante de sua incapacidade de fazer o bem.
  3. C)indica um conflito psicológico, uma vez que a personagem não se sente capaz de amar.
  4. D)alude a um contraste moral e existencial que provoca na personagem um sentimento de angústia.
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