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UERJ2023Fase unicaQuestao 1PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Ideias para adiar o fim do mundo
Quando se completaram quinhentos anos da travessia de Cabral e companhia, recusei um convite para vir a Portugal. Eu disse: "Essa é uma típica festa portuguesa, vocês vão celebrar a invasão do meu canto do mundo. Não vou, não". Porém, não transformei isso numa rixa e pensei: "Vamos ver o que acontece no futuro".
Em 2017, ano em que Lisboa foi capital ibero-americana de cultura, ocorreu um ciclo de eventos muito interessante, com performances de teatro, mostra de cinema e palestras. Fui convidado a participar, e, dessa vez, nosso amigo Eduardo Viveiros de Castro faria uma conferência no teatro Maria Matos, chamada "Os involuntários da pátria". Então, pensei: "Esse assunto me interessa, vou também". No dia seguinte ao da fala do Eduardo, tive a oportunidade de encontrar muita gente que se interessou pela estreia do documentário Ailton Krenak e o sonho da pedra, dirigido por Marco Altberg. O filme é uma boa introdução ao tema de que quero tratar: como é que, ao longo dos últimos 2 mil ou 3 mil anos, nós construímos a ideia de humanidade? Será que ela não está na base de muitas das escolhas erradas que fizemos, justificando o uso da violência?
A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível. Esse chamado para o seio da civilização sempre foi justificado pela noção de que existe um jeito de estar aqui na Terra, uma certa verdade, ou uma concepção de verdade, que guiou muitas das escolhas feitas em diferentes períodos da história.
Agora, no começo do século XXI, algumas colaborações entre pensadores com visões distintas, originadas em diferentes culturas, possibilitam uma crítica dessa ideia. Somos mesmo uma humanidade?
Pensemos nas nossas instituições mais bem consolidadas, como universidades ou organismos multilaterais, que surgiram no século XX: Banco Mundial, Organização dos Estados Americanos (OEA), Organização das Nações Unidas (ONU), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Quando a gente quis criar uma reserva da biosfera em uma região do Brasil, foi preciso justificar para a Unesco por que era importante que o planeta não fosse devorado pela mineração. Para essa instituição, é como se bastasse manter apenas alguns lugares como amostra grátis da Terra. Se sobrevivermos, vamos brigar pelos pedaços de planeta que a gente não comeu, e os nossos netos ou tataranetos — ou os netos de nossos tataranetos — vão poder passear para ver como era a Terra no passado. Essas agências e instituições foram configuradas e mantidas como estruturas dessa humanidade. E nós legitimamos sua perpetuação, aceitamos suas decisões, que muitas vezes são ruins e nos causam perdas, porque estão a serviço da humanidade que pensamos ser.
Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.
(AILTON KRENAK. Adaptado de Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.)
Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak questiona o que se convencionou chamar "humanidade", em especial a partir do século XVI. Esse questionamento deve-se principalmente ao fato de o sentido dessa palavra poder ser associado, na perspectiva de Krenak, à ideia de:
A)supremacia
B)radicalismo
C)estagnação
D)anacronismo
UERJ2023Fase unicaQuestao 2MatemáticaVelocidade média e proporçãoFacil
No período de 2011 a 2014, o programa Bolsa Verde remunerou famílias assentadas na região da Mata Atlântica que desenvolvessem atividades de proteção e restauração de áreas de vegetação nativa. O gráfico a seguir apresenta o número de famílias beneficiadas ao longo do programa.
Se a taxa de crescimento de 2012 a 2013 permanecesse a mesma observada de 2011 a 2012, a quantidade de famílias a mais beneficiadas pelo programa em 2013 seria de:
Imagens anexadas
A)6000
B)8000
C)12000
D)16000
UERJ2023Fase unicaQuestao 3PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Facil
No documentário Ailton Krenak e o sonho da pedra (2017), que traça o pensamento e a trajetória de Ailton Krenak, líder indígena natural de Minas Gerais, descendente da etnia Krenak, há o seguinte trecho:
"O problema é que faz muito tempo que nós começamos a achar que todos os lugares são lugares para serem ocupados pelos humanos. Pelos humanos e pelas suas tralhas. Pelos humanos e as suas tralhas tecnológicas, seu aparato, seu maquinário, suas cidades estúpidas."
(Adaptado de canalcurta.tv.br.)
No trecho citado do documentário, Ailton Krenak faz uma crítica às "tralhas tecnológicas" da humanidade. Essa crítica está associada à defesa da:
A)integração dos povos tradicionais
B)paralisação das práticas científicas
C)restauração do planejamento urbano
D)interrupção da degradação ambiental
UERJ2023Fase unicaQuestao 4PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Dificil
No texto Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak mantém uma postura crítica em relação ao colonialismo europeu. A obra de arte de inspiração cartográfica que mantém essa mesma postura é:
Niketche é o nome de uma dança executada em ritos de iniciação sexual das jovens em algumas regiões de Moçambique. No contexto do romance, a apropriação da dança pela autora pode ser entendida como uma subversão de sentidos. Essa subversão está melhor exemplificada no seguinte fragmento:
A)No coração da noite residem os sonhos. Umas vezes são coloridos como as flores. Outras, pássaros negros dançando nas trevas como fantasmas. (cap. 1)
B)Fazem fofocas. Falam nos ouvidos umas das outras e mandam risinhos de troça. Comem, bebem e dançam. (cap. 14)
C)Só o Tony é que não deu pela mudança. Está na dança de homem, onde tudo é permitido. (cap. 36)
D)A cantar e a dançar, construiremos escolas com alicerces de pedra, onde aprenderemos a escrever e a ler as linhas do nosso destino. (cap. 39)
UERJ2023Fase unicaQuestao 6PortuguêsCoesão e coerênciaMedia
Nas práticas primitivas, solidariedade é partilhar pão, manta e sêmen. Sou do tempo moderno. Prefiro dar a minha vida e o meu sangue a quem deles precisa. (cap. 4) A escrita do romance é bastante marcada por frases mais breves, que se aproximam da oralidade. Entre essas frases, mesmo sem a presença de conectores, é possível recuperar relações de sentido. No fragmento citado, entre a primeira frase e a segunda, e entre a segunda e a terceira, identificam-se, respectivamente, relações de:
O romance apresenta uma narrativa em primeira pessoa, mas contém passagens nas quais se identifica a presença de outros tipos textuais.
O fragmento do capítulo 4 que exemplifica apenas o tipo textual narrativo é:
A)Em algumas regiões do norte de Moçambique, o amor é feito de partilhas. Partilha-se mulher com o amigo, com o visitante nobre, com o irmão de circuncisão.
B)Não é por acaso que as mulheres da geração antiga têm tatuagens grossas nas ancas, no ventre, no peito, no rosto, para tornar a pele rugosa e gostosa. Chegamos a um consenso: o sensual é também cultural.
C)No norte, sem os ritos de iniciação, não és gente, és mais leve que o vento. Não te podes casar, ninguém te aceita e, se te aceitar, logo depois te abandona.
D)Mandei fazer umas roupas bem garridas, com amarelo, vermelho e laranja. Vesti-as e fui ao espelho. Estava magnífica. Toda eu era uma fruta madura. Cereja. Caju. Maçã. Estava simplesmente tentadora. LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA
Vou ao espelho tentar descobrir o que há de errado em mim. (...) Ah, meu espelho estranho. Espelho revelador. Vivemos juntos desde que me casei. Por que só hoje me revelas o teu poder? (cap. 1)
Não mais terei aquele espelho onde se refletia a imagem daquilo que fui, do que não sou e nunca mais voltarei a ser. (cap. 38)
Assim como em outros textos literários, o "espelho" é um objeto que assume função simbólica na construção da narrativa em Niketche. Em relação a Rami, narradora e personagem principal, essa função é de:
A)marcar etapas de sua trajetória em busca de transformar sua identidade em uma sociedade patriarcal
B)apresentar seus conflitos morais a fim de denunciar sua cumplicidade com uma estrutura poligâmica
C)desvendar traços de sua personalidade de modo a debater sua fragilidade em um país colonizado
D)destacar suas ações recorrentes com o intuito de superar seu papel em uma família tradicional
UERJ2023Fase unicaQuestao 9PortuguêsFiguras de linguagemMedia
As mulheres de Tony pertencem a diferentes grupos étnicos: Rami é ronga; Ju é changana; Lu é sena; Saly é maconde; Mauá é macua. Em relação a essa diversidade, na representação cultural de Moçambique, cada uma dessas mulheres pode ser compreendida pela seguinte figura de linguagem:
O coração do meu Tony é uma constelação de cinco pontos. Um pentágono. Eu, Rami, sou a primeira-dama, a rainha-mãe. Depois vem a Julieta, a enganada, ocupando o posto de segunda-dama. Segue-se a Luísa, a desejada, no lugar de terceira-dama. A Saly, a apetecida, é a quarta. Finalmente a Mauá Sualé, a amada, a caçulinha, recém-adquirida. (cap. 5)
Ruínas de uma família. A Lu, a desejada, partiu para os braços de outro com véu e grinalda. A Ju, a enganada, está loucamente apaixonada por um velho português cheio de dinheiro. A Saly, a apetecida, enfeitiçou o padre italiano que até deixou a batina só por amor a ela. A Mauá, a amada, ama outro alguém. (cap. 43)
A repetição de estruturas nos dois trechos citados aponta para as condições de vida das mulheres, que passam de uma postura passiva a um comportamento ativo. Essa transformação é marcada pela alternância entre os seguintes elementos:
Há dias conheci uma mulher do interior da Zambézia. Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação dos guerrilheiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, mimoso como um gato, é dos comandos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos guerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país. A primeira e a segunda vez foi violada, mas à terceira e à quarta entregou-se de livre vontade, porque se sentia especializada em violação sexual. O quinto é um homem com quem se deitou por amor pela primeira vez. (cap. 37)
O sentido de "humanidade", criticado no texto de Ailton Krenak, é chave para a compreensão de um contexto de extrema violência, como o narrado no fragmento. Nesse contexto de colonização, o corpo feminino está associado à imagem de:
A)luta a ser realizada
B)território a ser dominado
C)fronteira a ser ultrapassada
D)sentimento a ser conquistado
UERJ2023Fase unicaQuestao 12InglêsReading comprehension (atribuição de fala)Media
Essential reading on, and beyond, Indigenous Peoples Day
Formerly known as Columbus Day, today is Indigenous Peoples Day in more than 80 (and counting) cities, counties and states. While official recognition of this day began in the late '70s, with the UN discussing the replacement of Columbus Day, resistance and challenge to said "holiday" existed in the hearts and minds of indigenous and native peoples long before cities or states began to observe Indigenous Peoples Day.
As land defenders − people who are working for indigenous territories to be protected from contamination and exploitation − we see Indigenous Peoples Day as progress; it signals a crucial shift in our culture to recognize the dark past of colonization. No longer are our communities, towns, cities and states remaining silent and complacent in celebrating the cultural genocide that ensued after Christopher Columbus landed on Turtle Island (a.k.a. North America). Today also means that the erasure of our narrative as indigenous peoples is ending and our truths are rising to the surface. These truths include: Christopher Columbus was not a hero; he was a murderer. The land we all exist on is stolen. The history we've been taught is not accurate or complete. And perhaps most important among those truths, indigenous lands are still being colonized, and our people are still suffering the trauma and impacts of colonization.
Across the country, we continue to see the violation of our rights and treaties as extractive projects are proposed and constructed. Across the nation, we continue to grieve our missing and murdered indigenous women, victims of violence brought to their communities by extractive oil and mining projects. We continue to bear the brunt of climate change as our food sovereignty is threatened by dying ecosystems and as our animal relatives are becoming extinct due to land loss, warmer seasons and/or contamination. And now, we are fighting for the very right to resist as anti-protest laws emerge across the country, which aim to criminalize our people for protecting what is most sacred to us.
Yet, despite these challenges, our people and communities are demonstrating incredible bravery and innovation to bring forth healing and justice. Through the tireless work of indigenous organizers, activists, knowledge keepers and artists, we are learning about what is working and what our movements need more of to dismantle systems like white supremacy and systemic racism that colonization has imposed on our communities.
So while we could dive into the stories of how our people are still being attacked by the many forms of colonization, we find it important on this day, a day that symbolizes progress and evolution, to acknowledge what is working in our communities and in our movements. All too often, our people are framed as victims, and while there's truth in those narratives, it's also critical, for our self-actualization as indigenous peoples, to have our strengths, our resilience and our creativity seen and honored.
(JADE BEGAY AND DALLAS GOLDTOOTH. sierraclub.org, 08/10/2018.)
In this text, the authors advocate the following cause:
A)the transformation of Columbus Day into Indigenous Peoples Day
B)the understanding that indigenous people are victims of white supremacy
C)the recognition of indigenous peoples' strengths, resilience and creativity
D)the acceptance that indigenous people's history was not accurate or complete
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