Prova · UEMA 2024

Prova UEMA 2024: questões por disciplina

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O que caiu na prova 2024

Questões da prova UEMA 2024

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UEMA20241a faseQuestao 1PortuguêsLiteratura brasileira (poesia)Media
Antônio Gonçalves Dias, filho de um comerciante português e de uma mestiça de negro com índio, nasceu em um sítio próximo à cidade maranhense de Caxias, em 1823. Além dos temas de amor, o poeta engajou-se com uma poética de cunho social, centrada, sobretudo, nas questões dos povos originários, ao enobrecer o indígena, em uma perspectiva do conhecido “Mito do bom selvagem”. Leia as estrofes extraídas de “O Canto do Piaga” para responder às questões 01 e 02. O CANTO DO PIAGA I Ó Guerreiros, o espectro que eu vi. Ó Guerreiros da Taba sagrada, Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros da Tribo Tupi, Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meus cantos ouvi! [...] Ó Guerreiros, meus cantos ouvi. Vem trazer-vos crueza, impiedade – Dons cruéis do cruel Anhangá; Esta noite - era a lua já morta – Anhangá me vedava sonhar; Vem quebrar-vos a maça valente, Profanar Manitôs, Maracás. Eis na horrível caverna, que habito, Rouca voz começou-me a chamar. Vem trazer-vos algemas pesadas, Abro os olhos, inquieto, medroso, Com que a tribo Tupi vai gemer; Hão-de os velhos servirem de escravos Manitôs! que prodígios que vi! Mesmo o Piaga inda escravo há de ser! Arde o pau de resina fumosa, Não fui eu, não fui eu, que o acendi! Fugireis procurando um asilo, Triste asilo por ínvio sertão; Eis rebenta a meus pés um fantasma, Anhangá de prazer há de rir-se, Um fantasma d’imensa extensão; Liso crânio repousa a meu lado, Vendo os vossos quão poucos serão. Feia cobra se enrosca no chão. Vossos Deuses, ó Piaga, conjura, Susta as iras do fero Anhangá. O meu sangue gelou-se nas veias, Todo inteiro - ossos, carnes – tremi. Manitôs já fugiram da Taba, Frio horror me coou pelos membros, Ó desgraça! ó ruína!! ó Tupá! Frio vento no rosto senti. Era feio, medonho, tremendo, DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Belo Horizonte:Autêntica Ed.: 1998. Pode-se afirmar que, ao iniciar seu canto, o eu lírico confere ao Piaga
  1. A)exortação dos deuses aos guerreiros para lhes chamar a atenção sobre a crueldade de Anhangá.
  2. B)fala evocativa aos guerreiros da sua tribo sobre a revelação que lhe fora manifestada pelos deuses.
  3. C)preleção sobre atmosfera nebulosa e vaga dos sonhos de deuses guerreiros como alerta para as tribos.
  4. D)alerta sobre o descuido com os companheiros a respeito de uma iminente catástrofe da natureza.
  5. E)exposição do leitor para a bravura revelada pela capacidade bélica daquelas tribos tupis.
UEMA20241a faseQuestao 2PortuguêsInterpretação de textoMedia
Antônio Gonçalves Dias, filho de um comerciante português e de uma mestiça de negro com índio, nasceu em um sítio próximo à cidade maranhense de Caxias, em 1823. Além dos temas de amor, o poeta engajou-se com uma poética de cunho social, centrada, sobretudo, nas questões dos povos originários, ao enobrecer o indígena, em uma perspectiva do conhecido “Mito do bom selvagem”. Leia as estrofes extraídas de “O Canto do Piaga” para responder às questões 01 e 02. O CANTO DO PIAGA I Ó Guerreiros, o espectro que eu vi. Ó Guerreiros da Taba sagrada, Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros da Tribo Tupi, Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meus cantos ouvi! [...] Ó Guerreiros, meus cantos ouvi. Vem trazer-vos crueza, impiedade – Dons cruéis do cruel Anhangá; Esta noite - era a lua já morta – Anhangá me vedava sonhar; Vem quebrar-vos a maça valente, Profanar Manitôs, Maracás. Eis na horrível caverna, que habito, Rouca voz começou-me a chamar. Vem trazer-vos algemas pesadas, Abro os olhos, inquieto, medroso, Com que a tribo Tupi vai gemer; Hão-de os velhos servirem de escravos Manitôs! que prodígios que vi! Mesmo o Piaga inda escravo há de ser! Arde o pau de resina fumosa, Não fui eu, não fui eu, que o acendi! Fugireis procurando um asilo, Triste asilo por ínvio sertão; Eis rebenta a meus pés um fantasma, Anhangá de prazer há de rir-se, Um fantasma d’imensa extensão; Liso crânio repousa a meu lado, Vendo os vossos quão poucos serão. Feia cobra se enrosca no chão. Vossos Deuses, ó Piaga, conjura, Susta as iras do fero Anhangá. O meu sangue gelou-se nas veias, Todo inteiro - ossos, carnes – tremi. Manitôs já fugiram da Taba, Frio horror me coou pelos membros, Ó desgraça! ó ruína!! ó Tupá! Frio vento no rosto senti. Era feio, medonho, tremendo, DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Belo Horizonte:Autêntica Ed.: 1998. Pode-se afirmar que, ao iniciar seu canto, o eu lírico confere ao Piaga No contexto poético, são versos que mais caracterizam enfaticamente o pavor do homem branco:
  1. A)“Eis na horrível caverna, que habito, / Manitôs! que prodígios que vi!
  2. B)“Esta noite - era a lua já morta – / Anhangá me vedava sonhar;”
  3. C)“Um fantasma d’imensa extensão; / Feia cobra se enrosca no chão.
  4. D)“Triste asilo por ínvio sertão;/ Anhangá de prazer há de rir-se,[...]”
  5. E)“Vem trazer-vos algemas pesadas, / Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!
UEMA20241a faseQuestao 3PortuguêsInterpretação de textoMedia
Na década de 80, a canção Mulher (Sexo frágil) fez muito sucesso. Trata-se de uma declaração sobre a força feminina, que se vale do poder que as mulheres têm na relação com os homens. Ao mesmo tempo que a canção mostra a realidade de como a mulher é vista na sociedade, o eu lírico marca a posição de quão equivocada é essa perspectiva. Mulher (Sexo frágil) Canção de Erasmo Carlos Dizem que a mulher é o sexo frágil Mulher, mulher Mas que mentira absurda! Do barro de que você foi gerada Eu que faço parte da rotina de uma delas Me veio inspiração Sei que a força está com elas Pra decantar você nessa canção Vejam como é forte a que eu conheço Na escola em que você foi ensinada Sua sapiência não tem preço Jamais tirei um dez Satisfaz meu ego se fingindo submissa Sou forte mas não chego aos seus pés Mas no fundo me enfeitiça Mulher, mulher Quando eu chego em casa à noitinha Mulher, mulher Quero uma mulher só minha Mas pra quem deu luz não tem mais jeito Porque um filho quer seu peito O outro já reclama a sua mão E o outro quer o amor que ela tiver Quatro homens dependentes e carentes Da força da mulher https://www.letras.mus.br/erasmo-carlos/ A letra da canção deixa transparecer o machismo vigente na sociedade. Essa assertiva está comprovada nos seguintes versos:
  1. A)“Quatro homens dependentes e carentes /Da força da mulher”
  2. B)“Na escola em que você foi ensinada /Jamais tirei um dez”
  3. C)“Quando eu chego em casa à noitinha/ Quero uma mulher só minha”
  4. D)“Sei que a força está com elas /Vejam como é forte a que eu conheço”
  5. E)“Do barro de que você foi gerada/ “Me veio inspiração”
UEMA20241a faseQuestao 4PortuguêsLiteratura brasileira (poesia)Media
Leia, agora, um fragmento do poema A Leviana, de Gonçalves Dias para responder à questão 04. És engraçada e formosa Tuas formas tão donosas, Como a rosa, Tão airosas, Como a rosa em mês d'Abril; Formas da terra não são; És como a nuvem doirada Pareces anjo formoso, Deslizada, Vaporoso, Deslizada em céus d'anil. Vindo da etérea mansão. Tu és vária e melindrosa, Assim, beijar-te receio, Qual formosa Contra o seio Borboleta num jardim, Eu tremo de te apertar: Que as flores todas afaga, Pois me parece que um beijo E divaga É sobejo Em devaneio sem fim. Para o teu corpo quebrar. [...] És pura, como uma estrela DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Belo Horizonte:Autêntica Ed.: 1998. Doce e bela, Que treme incerta no mar: Mostras nos olhos tua alma Terna e calma, Como a luz d'almo luar. A leitura comparativa do poema de Gonçalves Dias e da canção de Erasmo Carlos, quanto à figura da mulher e seu papel na sociedade, indica que a mulher,
  1. A)no romantismo, está associada ao mal, por ter uma imagem negativa, ligada às causas da infelicidade amorosa. No modernismo, a mulher tem uma nova representatividade de seu papel social, sendo considerada como antídoto ao tédio.
  2. B)no romantismo, é identificada como um ser intocável, parte de um universo de ilusões de eternos apaixonados. No modernismo, a mulher é exaltada como aquela mulher dona de si, consciente de seus direitos, em busca de novos modos de ser e de viver, para além dos que já possui.
  3. C)no romantismo, é considerada perfeita, ainda que sejam descritos tanto suas qualidades quanto seus defeitos. No modernismo, as mulheres são bem menos idealizadas e mais condizentes com a realidade, tendo uma personalidade concreta, erotizada, de requintado sensualismo.
  4. D)no romantismo, é caracterizada como de vontade firme, determinada e sensual. No modernismo, as mulheres são tidas como aquelas que fazem uso de artimanhas, com o propósito de desafiar as condições impostas às mulheres de épocas anteriores.
  5. E)no romantismo, está vinculada ao real, ao carnal, ao mesmo tempo, idealizada. No modernismo, a mulher deixa de ser apresentada como um ser inocente e passa a ser vista como tangível, algo possível e alcançável.
UEMA20241a faseQuestao 5PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água. O conto Maria serve de base para responder às questões de 05 a 09. MARIA Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. [...] Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também. [...] O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? [...] Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: — Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão? Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho. EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. No início do conto, primeiro parágrafo, a personagem Maria não é definida, nem apresentada ao leitor, porque o enunciador tem a expectativa de
  1. A)superficializar personagens à medida que evidencia épocas passadas em que o poder social era exercido pela aristocracia.
  2. B)apresentar de imediato fatos do enredo que sejam reduzidos, visto que o conjunto do fluxo narrativo do conto é restrito.
  3. C)descaracterizar a ordenação espaço-temporal dos acontecimentos no conto, com uma linguagem mais econômica.
  4. D)despertar atenção do leitor na medida em que atitudes e fatos vão conferindo sentidos à identificação das personagens.
  5. E)reafirmar uma leitura implícita, representativa da vitória de todas as mulheres subalternas do passado.
UEMA20241a faseQuestao 6PortuguêsInterpretação de textoMedia
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água. O conto Maria serve de base para responder às questões de 05 a 09. MARIA Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. [...] 2024 Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também. [...] O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? [...] Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: — Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão? Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho. EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. No início do conto, primeiro parágrafo, a personagem Maria não é definida, nem apresentada ao leitor, porque o enunciador tem a expectativa de “Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes?” Essa passagem inicia uma sequência que caracteriza a
  1. A)relação tênue de uma mulher com um homem do passado que luta com o homem do presente.
  2. B)irreverência de um homem que se apresenta de forma leviana para mostrar aos outros homens uma apropriação vitoriosa.
  3. C)hesitação de uma mulher confusa que descaracteriza um relacionamento do passado ao enfatizar com raiva seu presente.
  4. D)centralização no presente dos dois; o homem e a mulher conseguem escapar do passado com indiferença, sem conflito gerador de arrependimentos.
  5. E)fantasia feminina na perspectiva de que o distanciamento entre os dois apagará quaisquer resquícios de saudade do passado.
UEMA20241a faseQuestao 7PortuguêsInterpretação de textoMedia
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água. O conto Maria serve de base para responder às questões de 05 a 09. MARIA Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. [...] 2024 Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também. [...] O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? [...] Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: — Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão? Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho. EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. No início do conto, primeiro parágrafo, a personagem Maria não é definida, nem apresentada ao leitor, porque o enunciador tem a expectativa de Em “Ouviu uma voz: negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois.” e “Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!...” , a seleção vocabular dos fragmentos revela, com veemência, por parte dos demais personagens da cena narrada, uma atitude (de)
  1. A)rancorosa em relação ao rótulos de malandragem e de preguiça imputados à protagonista.
  2. B)preconceituosa no que concerne à raça e ao gênero da protagonista.
  3. C)repúdio no tocante ao comportamento e à inércia da protagonista ante a violência da cena.
  4. D)desamor em referência aos cidadãos menos privilegiados socialmente no cotidiano urbano.
  5. E)enjeitamento com respeito à indolência dos que assistem às cenas de violência no dia a dia urbano.
UEMA20241a faseQuestao 8PortuguêsSemânticaMedia
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água. O conto Maria serve de base para responder às questões de 05 a 09. MARIA Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. [...] 2024 Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também. [...] O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? [...] Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: — Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão? Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho. EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. No início do conto, primeiro parágrafo, a personagem Maria não é definida, nem apresentada ao leitor, porque o enunciador tem a expectativa de As palavras denotativas, modernamente, são consideradas marcadores discursivos, que contribuem para a coesão, a ligação entre as partes do texto. No trecho “Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher.”, a função semântica do termo sublinhado é
  1. A)ordenar informações elencadas na cena narrativa.
  2. B)sequenciar o discurso do protagonista para comprová-lo.
  3. C)indicar uma contraposição enjeitada no fluxo narrativo.
  4. D)exprimir relação de tempo a fim de reforçá-lo.
  5. E)reforçar uma ideia pré-concebida do enunciador.
UEMA20241a faseQuestao 9PortuguêsFunções da linguagemMedia
Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Trabalhava como empregada doméstica, até concluir o Curso Normal, já então com 25 anos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo estudado Letras em uma universidade pública, a UFRJ. Suas obras abordam temas como discriminação racial, de gênero e de classe. A pobreza e a vulnerabilidade da população afro-brasileira, envolvendo mulheres e homens, é a tônica da autora em Olhos D’Água. O conto Maria serve de base para responder às questões de 05 a 09. MARIA Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. [...] 2024 Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem sentou-se a seu lado. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam de gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também. [...] O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E, logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? [...] Os assaltantes desceram rápido. (...). Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma, gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: — Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos iriam gostar de melão? Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher estava todo dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho. EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. No início do conto, primeiro parágrafo, a personagem Maria não é definida, nem apresentada ao leitor, porque o enunciador tem a expectativa de A linguagem tem funções que levam em consideração a intencionalidade do emissor, o que pode ser exemplificado na cena final do conto que, apesar de retratar uma situação que se poderia tornar manchete de jornal, portanto referencial, leva o leitor a observar
  1. A)combinação das funções: fática, pelo contato próximo com o leitor; metalinguística, pela duplicação de frase e de sentimentos, capturados pelo narrador.
  2. B)sobreposição de funções: emotiva, pela seleção de palavras que exprimem desejo; conativa, pela tentativa de influenciar o pensamento do leitor.
  3. C)articulação de funções: metalinguística, pela sensibilização do público leitor devido à beleza da narração; conativa, pelo caráter panfletário do fluxo narrativo.
  4. D)evidência de funções: poética, pela seleção e pela combinação do léxico; emotiva, pela expressividade dos sentimentos narrados.
  5. E)configuração de funções: conativa, pelo olhar do narrador de dentro e de fora do personagem; poética pelas equivalências sonoro-gráficas das palavras e seus ritmos.
UEMA20241a faseQuestao 10PortuguêsInterpretação de textoMedia
As charges utilizam os recursos do desenho e do humor para fazer algum tipo de crítica às situações do cotidiano. Analise a charge a seguir para responder à questão 10. http://www.onumulheres.org.br Sobre a charge da venezuelana Suprani, analise as seguintes assertivas e julgue aquelas que são verdadeiras. I) A expressão fisionômica da noiva, imagem à direita, é de surpresa em relação à imagem refletida no espelho, à esquerda. II) A imagem da noiva e seu reflexo descrevem, de forma precisa, as relações humanas em tempos globalizados. III) A charge apresenta uma crítica social contundente ao papel da mulher na sociedade. IV) A imagem, ao fazer uma crítica social, celebra as posições invertidas da mulher na sociedade. V) A charge desnuda, de forma crítica, o sonho do casamento e a realidade de estar casada. Estão corretas, apenas, as seguintes assertivas:
Imagens anexadas
  1. A)II, III, IV.
  2. B)III, IV, V.
  3. C)I, III, V.
  4. D)I, II, IV.
  5. E)II, IV, V.
UEMA20241a faseQuestao 11PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
Jorge Amado de Faria, autor de vasta obra literária, adotou como temas principais a miséria, as relações sociais e humanas do povo da Bahia. Dentre suas obras cita-se Mar morto, incluído nas crônicas de costumes. Mar morto, de Jorge Amado, difere do Mar morto, localizado no Oriente Médio, caracterizado por sua alta salinidade, o que impede quase toda a forma de vida naquele lago. Em contrapartida, no romance, os impedimentos existentes são de ordem social e enigmática. Nessa obra, o autor enfoca
  1. A)as crianças, sem apoio da sociedade, que vivem à deriva no cais do porto.
  2. B)os pescadores, vistos como ambiciosos, que exploram o mar pela ganância.
  3. C)os marinheiros, protagonistas de águas míticas, que são invisíveis na terra.
  4. D)o mar da Bahia, descaso dos marinheiros, que é vitimado pela destruição.
  5. E)o cais, lugar iluminado pelas noites de luar, que testemunha a poluição de seu espaço.
UEMA20241a faseQuestao 12PortuguêsLiteratura brasileira (prosa)Media
Em Mar morto, ambiente predominantemente masculino, as personagens femininas adquirem vida própria. Considerando as características de bravura e de persistência, destaca-se a seguinte personagem:
  1. A)Dona Dulce.
  2. B)Judith.
  3. C)Maria Clara.
  4. D)Tia Rita.
  5. E)Lívia.
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